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“O Brasil precisa respeitar o outro”, diz nova professora emérita da Faculdade de Educação

 

Foto: Pixabay

Texto: Coryntho Baldez

Neta de refugiados da perseguição contra judeus na Europa do início do século XX, Ana Ivenicki se formou em Ciências Biológicas na UFRJ em 1979.

De lá para cá, fez carreira acadêmica na área da educação. Tornou-se professora da UFRJ em 1997 e se dedicou à pesquisa em Multiculturalismo. A origem familiar ajudou-a a entender o outro e a respeitar a diversidade.

Professora titular da Faculdade de Educação (FE) há três anos, Ana Ivenicki foi aclamada professora emérita da UFRJ na sessão de 27 de junho do Conselho Universitário (Consuni).  “Foi o coroamento da minha carreira e fiquei muito emocionada na ocasião”, revela.

A sessão oficial de entrega do título será nesta quinta-feira (10/10), às 16h, no Salão Pedro Calmon, no Palácio Universitário, na Praia Vermelha.

Nesta entrevista ao Setor de Cultura, Comunicação e Divulgação Científica e Cultural (Secult) da Faculdade de Educação (FE), ela fala sobre a sua trajetória acadêmica e defende os estudos multiculturais em um país com a dimensão e a pluralidade do Brasil.

Exalta, ainda, a criação do Complexo de Formação de Professores da UFRJ. Em um contexto de políticas “neoconservadoras” em várias áreas e que atingem a educação, classificou a iniciativa como “muito importante”.

Secult – Fale um pouco sobre a sua trajetória e em que momento decidiu se dedicar à área da educação?

Ana Ivenicki – Parece um clichê, mas sempre gostei da ideia de ser professora. Fiz a licenciatura na UFRJ em Ciências Biológicas e, pelo modelo da época, cursei três anos de conteúdo específico no Fundão e mais um ano de disciplinas pedagógicas na Praia Vermelha. E acabei me apaixonando pelas aulas na Faculdade de Educação e também pela arquitetura do prédio do Palácio Universitário.

Secult – Foi então que decidiu pela carreira acadêmica?

Ana Ivenicki – Sim, fiz o mestrado em educação pela PUC-Rio e o Doutorado pela Universidade de Glasgow, na Escócia e enveredei pela área da educação. O conteúdo específico de Biologia foi ficando para trás.

Secult – Essa escolha teve influência familiar? As suas origens e a formação em casa tiveram algum papel em sua trajetória acadêmica?

Ana Ivenicki – Engraçado, não teve, apesar de minha mãe ter sido professora de inglês e o meu pai de hebraico. E a minha origem familiar é diversificada. Meu avô materno era libanês e a avó materna egípcia. E meu avô paterno era russo e a avó polonesa…

Secult – Então, os seus estudos sobre Multiculturalismo tiveram ao menos uma inspiração familiar?

Ana Ivenicki – Aí possivelmente sim, pela minha formação de vida como neta de imigrantes refugiados, que abandonaram as suas terras durante I Guerra Mundial devido às perseguições aos judeus. Na Rússia, por exemplo, havia muitos pogroms [perseguição em massa de grupos étnicos]. Isso tudo me fez entender como é a gente se sentir o outro.

Secult – Essa ideia foi se consolidando aos poucos?

Ana Ivenicki – Se consolidou quando comecei a cursar o mestrado e passei a gostar da literatura sobre oprimidos e a estudar a educação para a justiça social. Mas foi apenas no doutorado que a educação multicultural virou para mim um objeto acadêmico. É uma educação que valoriza a diversidade e desafia preconceitos.

Secult – E qual a importância desses estudos multiculturais em um país como o Brasil?

Ana Ivenicki – O Brasil é um país multicultural por excelência porque foi formado na diversidade. Tínhamos os povos indígenas, os europeus conquistadores, várias levas de imigrantes japoneses, italianos, e as imigrações forçadas de africanos.  E temos muitos refugiados. Até certo tempo atrás, o Brasil não se reconhecia como um país de imigrantes. Mas isso já acontece. Temos hoje imigrantes sírios, venezuelanos. Então, a importância de desafiarmos o preconceito é cada vez maior. Não só com relação ao imigrante, mas àquele que é percebido como o outro.

Secult – Essa é uma perspectiva que envolve outras abordagens?

Ana Ivenicki – Sim, por exemplo, a questão racial e a questão da homofobia. A abordagem multicultural é muito importante para um país da dimensão do nosso, com essa pluralidade. Considero que a educação e, mais especificamente, a formação de professores, é um palco essencial nessa luta para respeitar o outro. Isto porque é a diversidade que nos enriquece.

Secult – Qual o papel da escola pública no enfrentamento de situações de exclusão, de conflitos culturais e de preconceito contra grupos sociais ou raciais?

Ana Ivenicki – É uma pergunta importante. A escola pública nossa é de qualidade. Nas minhas palestras e em programas de formação continuada, tenho visitado muitas escolas. O que vejo é um trabalho de muita dedicação e qualidade. Existem projetos maravilhosos, de perspectiva plural, com crianças que vêm, por exemplo, de comunidades onde a violência predomina. Então, a escola pública é o espaço da diversidade, e o seu papel para ampliar o discurso do respeito ao outro é central.

Secult – Os projetos e ações nas escolas, apesar de importantes, esbarram hoje muitas vezes em políticas conservadoras, de viés misógino ou homofóbico, por exemplo.  Como enfrentar essa situação?

Ana Ivenicki – Sim, esse é um ponto importante. Uma coisa é desenvolver projetos curriculares multiculturais nas escolas públicas com o apoio de políticas macro. Outra é desenvolver esses projetos contra a maré. Infelizmente, não apenas o Brasil, mas o mundo está entre tensões. E existem perspectivas herméticas ao que é indiscutível. A diversidade está aí, não dá para fechar os olhos. A escola pública recebe crianças criadas por casais homossexuais, por exemplo. Não há como impor um padrão único de comportamento. Temos que continuar com os nossos projetos. Ainda temos instituições democráticas e movimentos sociais fortes, no Brasil e no mundo, que podem impor um revés a essa perspectiva conservadora. Não há mal que sempre dure.

Secult – E qual a sua avaliação sobre o Complexo de Formação de Professores da UFRJ, que defende a aproximação da universidade com a escola pública?

Ana Ivenicki – Eu creio que a universidade, ao fazer parcerias com a rede pública de ensino, com as secretarias de educação, e promover educação continuada, ela está realmente articulando a teoria ao chão da escola. É aí que vamos ver a importância de um currículo multicultural. E gostaria de aproveitar essa oportunidade para parabenizar toda a equipe que está envolvida no projeto do Complexo, os professores e a direção da Faculdade de Educação. A iniciativa é muito importante, especialmente em um contexto em que macropolíticas neoconservadoras estão impondo uma agenda contrária a uma realidade que é multicultural.

Secult – E de que modo as ações do Complexo podem fazer diferença?  

Ana Ivenicki – Quanto mais a nossa ação for coletiva e em rede, e não esparsa e individual, mais teremos a probabilidade de sucesso para que as macropolíticas levem em conta a realidade brasileira. Creio que o Complexo tem grande importância porque valoriza as escolas. É a universidade fazendo o diálogo entre teoria e prática e prática e teoria, e não se fechando em uma torre de marfim. Isso contribui não só para a formação continuada dos professores da rede pública como também dos estudantes de licenciatura e nós mesmos, como professores formadores. O Complexo expressa o compromisso social da universidade, que se dá por um ensino de qualidade, pela pesquisa que faz avançar o conhecimento e pela articulação com a sociedade por meio da extensão.

Seminário debate desafios da formação na escola pública

A exposição de bordados foi uma atração do seminário. As peças foram feitas por docentes da rede básica em homenagem aos professores que marcaram a sua vida. Foto: Coryntho Baldez

Texto: Coryntho Baldez

No centenário prédio da Escola de Formação Paulo Freire, no Centro, o Complexo de Formação de Professores (CFP) da UFRJ realizou no dia 24/9 – em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio – o II Seminário A Escola como Espaço de Formação. O evento contou com a presença de diretores, coordenadores pedagógicos e professores de 19 escolas da rede pública.

Após acolhedora recepção, com direito a café da manhã e piano ao vivo, os presentes se dividiram em grupos de trabalho para discutir as potencialidades e as perspectivas da escola pública como importante lócus para a formação de professores.

Tempo para formação é escasso

A necessidade de integrar os profissionais da educação e uma maior compatibilização entre o “tempo em sala de aula” e o “tempo de formação” foram sugestões unânimes feitas pelos grupos. Houve ainda outro consenso: as soluções para os problemas pedagógicos não podem ser genéricas, mas norteadas pela realidade social e cultural de cada escola.

“Os nossos professores devem ter um horário específico para a formação que não concorra com a carga letiva”, disse Geisi Nicolau, pedagoga e diretora do Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (Creja), escola-piloto do CFP.

Para Geisi, o Complexo ajudará a rede pública a superar os dilemas cotidianos que enfrenta no campo da formação docente: “A valorização do diálogo entre a universidade e a escola é importante para encontrarmos soluções conjuntas para os desafios que temos no dia a dia”.

O objetivo da universidade, de fato, não é ir à escola para oferecer respostas prontas, reforçou Claudia Iglesias Ribeiro, do suporte estratégico do CFP. “Não há saber superior e esse tipo de seminário expressa o nosso importante princípio da horizontalidade”, frisou a Técnica em Assuntos Educacionais da UFRJ.

Claudia Iglesias coordenou o debate dos grupos de trabalho. Foto: Coryntho Baldez

Claudia também concordou com a diretora do Creja de que o tempo do professor para se dedicar à formação continuada é escasso, especialmente daqueles que possuem duas matriculas na rede pública. “Descobrir esse tempo precisa depender menos de inciativas pessoais e mais do planejamento do poder público”, destacou.

Em outra atividade do encontro, Graça Reis, vice-diretora do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ, fez uma apresentação intitulada Docência nos Fios da Memória.

Trata-se de uma iniciativa pela qual o profissional da rede básica, por meio da arte do bordado, tece literalmente um tributo ao professor que marcou a sua trajetória de vida.

A ideia da homenagem surgiu, segundo Graça, em razão do atual “massacre” à docência, que convive com a precarização e ainda sofre acusações infundadas de doutrinação de estudantes.

O resultado do trabalho foi apresentado por meio de uma exposição com 80 bordados, que enfeitou os corredores da imponente edificação da Escola Paulo Freire.

Graça Reis apresentou o projeto Docência nos Fios da Memória. Foto: Coryntho Baldez

Assustando as estruturas de poder

Em seguida, na palestra Formação – Do que Estamos Falando?, Carmen Gabriel, diretora da Faculdade de Educação (FE) e coordenadora do Complexo, ressaltou que, embora a proposta de aproximar escola e universidade não seja nova, a ambição de transformá-la em política sistemática e de largo alcance é sua força diferencial.

“A aproximação desses dois espaços só acontecerá com articulação, pertencimento e engajamento de todos nós, em todos os níveis”, sustentou.

Além da conexão entre os “territórios” acadêmico e escolar, a professora titular da FE também apontou como essencial a articulação entre formação inicial e continuada e entre sujeitos e saberes.

Por isso, acrescentou Carmen, a ideia da horizontalidade – “que assusta algumas estruturas de poder na academia e nas secretarias de educação” – é tão cara ao projeto do Complexo.

O que se busca questionar por meio desse princípio, segundo ela, são algumas hierarquizações cristalizadas, como a que supostamente existe entre saberes que, na verdade, são apenas distintos. “Por isso, não temos receita pronta”, frisou.

No seminário, Carmen Gabriel fez uma palestra intitulada Formação – Do que Estamos Falando? Foto: Coryntho Baldez

A pesquisadora disse, ainda, que o grande desafio do Complexo é consolidar a ideia de ‘casa comum’ e criar coletivamente as regras para o seu funcionamento, com a participação de todos os sujeitos. “Queremos fazer uma política com vocês, não para vocês”, arrematou.

O papel do afeto na inclusão de alunos

No seminário, também houve relatos de experiências de formação e espaço para reflexão sobre o professor-pesquisador.

Deise Guilhermina, por exemplo, vivenciou o processo de inclusão de 30 alunos portadores de necessidades educativas especiais na Escola Maria Baptistina Duffles Teixeira Lott, em Vista Alegre. Ela voltou a dar aulas lá em 2018, após quatro anos afastada para cursar Doutorado em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Deise contou que o “belíssimo trabalho” desenvolvido pelos professores teve o apoio decisivo da Agente de Apoio à Educação Especial. “Aprendi com os relatos e experiências dos demais colegas assim como com a equipe de direção”, disse.

Marcou-a, especialmente, uma conversa com a diretora-adjunta da escola, que, segundo ela, “creditou o sucesso do trabalho ao entrosamento com as professoras das salas de recursos que atendem os alunos e à coesão do grupo”.

Deise acrescentou que um dos principais ingredientes do êxito da escola – “não só no que se refere à inclusão, mas em todas as propostas que desenvolve” – é o afeto.

“A escola desenvolve uma prática pedagógica marcada pela afetividade e a dialogicidade, como propõe Paulo Freire”, completou.

Daniel de Oliveira e Deise Guilhermina fizeram relatos de experiências e refletiram sobre o papel do professor-pesquisador. Foto: Coryntho Baldez

Diálogo para pensar a prática

Já Daniel de Oliveira, coordenador pedagógico do Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (Creja), disse que ser professor-pesquisador significa assumir uma postura investigativa sobre a própria prática docente.

“É preciso desnaturalizar os saberes e fazeres a partir de um movimento de reflexão sobre a ação docente, sobre o que nos desafia e instiga no cotidiano”, observou. Esse movimento, segundo ele, pressupõe um tempo para viver e pensar sobre a experiência e também, quando possível, o diálogo entre pares.

É o diálogo, para Oliveira, “que possibilita o compartilhamento de experiências e que outros olhares ajudem a problematizar a prática, ou seja, a pensar sobre as trajetórias de formação e os fundamentos que utilizamos para dar base ao nosso fazer docente”.

Complexo qualifica espaço da escola

Márcio da Costa, diretor da Escola Paulo Freire e professor de Sociologia da Educação da UFRJ, elogiou o seminário e a iniciativa de criar o Complexo. Há alguns anos, ele costumava dizer que a UFRJ precisava “criar uma Coppe” – o instituto de excelência em Engenharia da Universidade – na área da educação.

“É uma tarefa muito importante para ficar restrita a uma unidade. Assim como aconteceu com a engenharia, a educação precisa ganhar um espaço de formação denso e de qualidade”, frisou.

O Complexo, diz ele, poderá ser capaz de congregar pessoas de várias unidades que têm preocupação com as questões referentes à formação de professores, tanto no âmbito da docência como da pesquisa.

Morgana Rezende, gerente da Equipe de Formação Inicial da Escola Paulo Freire, avaliou que o seminário é importante porque, para ela, o professor se constitui na escola e, muitas vezes, não se vê representado na produção acadêmica.

“Considero que essa conexão da universidade com a rede pública, como propõe o Complexo, transforma a escola em espaço qualificado e aproxima teoria e prática na área educacional”, afirmou.

Maria Eny: “O Complexo permite refletir sobre capacitação de professores e planejamento”. Foto: Coryntho Baldez

Já Maria Eny, diretora da escola municipal Paraguai, em Marechal Hermes, salientou que o CFP dá vez e voz aos atores participantes do processo educacional.

“A partir dessa iniciativa, tanto a universidade como a escola básica estão refletindo sobre os caminhos da capacitação de professores, do planejamento e do projeto político-pedagógico”, destacou.

Ela assinalou, ainda, que o evento proporcionou o estreitamento dos laços da universidade com e escola e a troca de experiências entre todos os sujeitos. “Como disse Vygotsky, na ausência do outro, o homem não se constrói”, concluiu.

O próximo seminário ocorrerá em fevereiro de 2020, mas o dia ainda depende do calendário escolar da Prefeitura.

Future-se: a ilusão de um horizonte de fartura para a universidade pública

Texto: Coryntho Baldez

Pôr do sol no Fundão, visto do terraço do prédio da Reitoria. Ao longe, o Centro de Tecnologia. Crédito: Raphael Pizzino (Coordcom / UFRJ)

As férteis promessas do Future-se de atrair volumosos recursos da indústria para a universidade pública e converter os estudantes em empreendedores de sucesso se chocam com a realidade.

O programa do Ministério da Educação (MEC), lançado em 17 de julho, desconsidera que o setor produtivo não investe em pesquisa e que a economia brasileira, dependente de commodities, tem sido incapaz de gerar empregos qualificados e de produzir bens e serviços com alto conteúdo tecnológico.

A análise de Roberto Leher, ex-reitor da UFRJ e professor titular da Faculdade de Educação (FE), foi feita em debate sobre o Future-se, na Semana de Integração da Pedagogia, em 21/8, no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha.

A princípio, segundo ele, a ideia de incrementar a cooperação entre as instituições federais de ensino superior (Ifes) e as empresas tem certo apelo sob a ótica do senso comum. Afinal, a colaboração pode ser frutífera em determinadas áreas, como aconteceu com a parceria entre a Petrobras e a UFRJ para desenvolver a tecnologia de exploração do pré-sal.

Contudo, Leher ressaltou que o debate não é sobre se a universidade deve ou não manter uma interação com o setor produtivo, mas se o capital privado pode, de fato, financiá-la.

Nos EUA, apenas 1% do dinheiro privado chega à universidade

Pesquisador de políticas públicas em educação, ele disse que a indústria, na verdade, não financia o grosso da pesquisa universitária em nenhum país do mundo, nem mesmo nos Estados Unidos, onde há forte interação da universidade com as empresas.

Roberto Leher: “A emenda 95, que congelou os gastos públicos, é a chave para entender o Future-se” . Crédito: Bianca Pinheiro

De acordo com o professor, um estudo da Fundação Nacional da Ciência (NSF, na sigla em inglês) dos Estados Unidos mostrou que, em 2017, do total do dinheiro aplicado pelas empresas em pesquisa e desenvolvimento (P&D) apenas 1% chegou às universidades. Ou seja, 99% desses recursos ficaram nos próprios departamentos de pesquisa do setor privado.

No caso brasileiro, segundo Leher, a última edição da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) do IBGE, de 2014, mostra que apenas 7% das empresas consideradas inovadoras interagem com a universidade. “Desse percentual, cerca de 70% declararam que essa relação não era estratégica do ponto de vista empresarial”, contou.

Além disso, para o pesquisador, a alternativa de a indústria financiar a universidade brasileira é irreal também por razões macroeconômicas. Lembrou, por exemplo, que o Brasil convive com o número de 55 milhões de pessoas desempregadas, subempregadas ou sem proteção social e uma economia estagnada.

O que existe no Brasil, disse ele, é um esvaziamento da indústria e a expansão da produção de commodities para a exportação, como o minério de ferro, a soja e a carne. “Uma economia pouco complexa e desindustrializada gera trabalho precário e de baixa qualificação”, afirmou.

Emenda 95 impôs camisa de força ao Estado

Em uma economia deteriorada e rudimentar, qual o lugar da pesquisa? Para Leher, o país vive um processo acelerado de eliminação da estrutura e das políticas de ciência e tecnologia do âmbito do Estado.

No entanto, segundo ele, a crise financeira do Estado deve ser atribuída, principalmente, à Emenda Constitucional (EC) 95/16, que congelou os gastos públicos por 20 anos e foi aprovada pelo governo Temer. “Ela é a chave para a leitura do Future-se”, afiançou.

A medida, segundo ele, estabelece uma divisão entre duas grandes contas do Estado brasileiro. Uma delas, intocável, diz respeito aos gastos financeiros, relativos ao pagamento de juros e serviço da dívida. “É uma conta sem controle e limite”, sentenciou.

A outra conta, disse, tem limite e se relaciona aos gastos primários, ou seja, todas as despesas não financeiras, como, por exemplo, pagamento de pessoal, benefícios previdenciários, investimentos públicos em infraestrutura e em áreas como educação, ciência, cultura e saúde.

“As despesas primárias no Brasil correspondem a apenas 20% do PIB. Com a emenda 95, a perspectiva é que esse teto caia entre 0,5% e 0,8% por ano, de acordo com um estudo da assessoria da Câmara dos Deputados”, alertou.

Segundo o professor, a EC 95 impôs uma camisa de força ao Estado brasileiro, que não existe em nenhum outro país do mundo. Diante desse quadro, para Leher, é possível concluir que a medida está forçando uma reforma não consentida do Estado. “A reforma da Previdência é uma prova disso”, enfatizou.

O Future-se, disse ele, também é uma dimensão da reforma do Estado. Sem debate prévio, o programa foi apresentado pelo governo como alternativa à crise orçamentária das universidades.

“Recursos de pesquisa não pagam a conta de energia”

As universidades brasileiras, segundo o ex-reitor, recebem para o seu orçamento de pesquisa e desenvolvimento o correspondente a 1,5% em média dos seus gastos gerais. Na UFRJ, um valor em torno de R$ 4 milhões anuais.

Segundo ele, ainda que no Brasil muitas empresas quisessem contratar universidades públicas para fazer pesquisa – “o que está longe de ser verdade” – e a UFRJ recebesse a mais o mesmo valor orçamentário de R$ 4 milhões, esses recursos não cobririam nem a conta de energia, de cerca de R$ 70 milhões.

Segundo Leher, a grande contribuição que a universidade pública oferece às empresas é a formação de pessoal qualificado para operar os seus departamentos de P&D. “No entanto, qual é o nosso drama? A indústria não contrata porque não há ambiente para pesquisa inovadora. O país, na verdade, está exportando matéria-prima”, reforçou.

A pesquisa Pintec também mostra que dos 90 mil mestres e doutores formados no Brasil nas ciências duras entre 2008 e 2010, apenas 80 profissionais foram contratados pela iniciativa privada. “Não chegou nem mesmo a 1%. Mestres e doutores no Brasil trabalham no âmbito público simplesmente porque a indústria não os contrata em proporção significativa”, acentuou.

Sem patrimônio e sem autonomia

De onde viria então o dinheiro do Future-se, que quer “proporcionar às instituições federais de ensino superior acesso a cerca de R$ 100 bilhões”, conforme notícia publicada no Portal do MEC? Essa cifra, segundo Leher, viria do patrimônio da universidade pública.

Anfiteatro (Legenda: Anfiteatro da Praia Vermelha: Pelo Future-se, patrimônio das universidades poderiam integrar um fundo de investimento para ser negociado na Bolsa de Valores. Crédito: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

 

A ideia do Future-se é fazer um levantamento de todos os terrenos das universidades que aderirem ao programa, por meio do Serviço de Patrimônio da União (SPU), e colocá-los à disposição do MEC. “Esse patrimônio iria para um fundo de investimento para ser negociado na Bolsa de Valores, sob controle das chamadas Organizações Sociais [OS]”, disse.

Segundo ele, as Organizações Sociais são entidades privadas com as quais as instituições federais de ensino superior teriam que fazer um contrato de transferência de gestão. “A rigor, o programa é uma iniciativa em que o patrimônio da universidade passa ao controle do MEC, com os circuitos decisórios circunscritos à Organização Social e aos investidores”, condenou.

Com a terceirização da gestão, afirmou Leher, a autonomia universitária para definir as ações prioritárias no ensino, na extensão e na pesquisa desaparece. O poder decisório ficará nas mãos dos investidores que participam do fundo privado.

“Ora, a universidade não teria mais, então, os seus conselhos acadêmicos e de gestão para definir as suas prioridades? Insisto que isso não existe em nenhum lugar do mundo”, reiterou.

A universidade perderia ainda, com o Future-se, a autonomia de gestão financeira, o que contraria os princípios da Constituição Federal. Por isso, para Leher, “o programa é flagrantemente inconstitucional”.

“A educação pública é um elemento civilizatório”

Além disso, ele diz que o Future-se está repleto de submarinos, ou seja, “propostas contrabandeadas” sem nenhuma relação direta com o teor do programa. Um dos mais graves é o fim da dedicação exclusiva (DE) do professor. “Sabemos que não há pesquisa sem esse regime de contratação”, alertou.

Leher disse ainda que vivenciamos um momento no Brasil e no mundo em que parecemos imersos em uma profunda neblina.

Segundo ele, a realidade está se mostrando bastante dura, mas é possível agir para transformar o tempo histórico e buscar alternativas.

“Mais do que nunca, o fazer universitário da educação pública é um elemento civilizatório nessa mudança. E isso deve nos encher de esperança e coragem”, completou.

“Em época hostil à educação, é crucial formar bons professores”, diz diretora da FE

Texto: Coryntho Baldez

Sala de aula do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ. Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcom / UFRJ)

A docência é um componente essencial da formação do pedagogo. Encará-la como profissão deveria ser uma espécie de bússola da vida acadêmica dos estudantes.

Com essa exortação aos alunos para que percebam o magistério como atividade com estatuto profissional próprio, a diretora da Faculdade de Educação (FE), Carmen Gabriel, abriu a aula inaugural que proferiu na Semana de Integração da Pedagogia, na noite de 19/8, no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha.

A professora titular de Currículo da FE falou sobre o Complexo de Formação de Professores da UFRJ no evento semestral que promove o acolhimento de novos estudantes e a troca de saberes acadêmicos.

De outro lado, Carmen frisou que cabe à universidade assumir, de modo claro, a sua função social de formar bons profissionais para trabalhar nas escolas da educação básica: “Talvez seja o que mais o Brasil precisa”.

Carmen Gabriel: “UFRJ deve ter o mesmo orgulho de formar professores que tem de formar os seus médicos e engenheiros”. Foto: Coryntho Baldez

Embora tenha ressaltado que a gestão escolar é relevante e será abordada durante o curso, Carmen foi taxativa ao se dirigir aos estudantes: “É importantíssimo vocês saberem que se tornarão professores das séries iniciais na educação básica, e que essa é uma dimensão vital da formação de pedagogos”.

Ela disse, ainda, que a atividade docente não é transmitir o conteúdo de modo mecânico, mas transformá-lo em objeto de ensino. “Não basta saber Matemática ou História para ser professor”, advertiu.

Uma rede que envolve vários sujeitos

Foi como resposta ao desafio de diplomar profissionais cada vez mais qualificados para a docência que a UFRJ criou o Complexo de Formação de Professores (CFP).

Segundo Carmen, trata-se de uma política institucional assumida pela Universidade e que tem como uma de suas ideias centrais a valorização das licenciaturas.

“As licenciaturas têm identidade e especificidades próprias e não podem mais ser vistas como algo menor pela academia. A resolução que criou o Complexo fala disso”, afirmou.

Ela classificou o CFP – do qual é coordenadora – como uma rede que articula todos os sujeitos envolvidos na formação “desse profissional chamado professor”.

Estudantes lotaram o auditório para saber mais sobre o Complexo de Formação de Professores. Foto: Coryntho Baldez

Segundo a dirigente, o projeto inicial do Complexo também foi orientado pela ideia de casa comum, mas não no sentido físico do termo. É um movimento de articulação, capaz de possibilitar a convivência horizontal e igualitária – sob o mesmo “teto” – dos sujeitos envolvidos com a formação inicial e a formação continuada de professores.

“Escola é lugar de formação”

Ela citou a escola, em especial, como um importante lugar de formação, muitas vezes negligenciado. Assim como a residência médica é uma modalidade de ensino consagrada para os médicos, a pesquisadora considera que o futuro professor deve ter uma relação produtiva com a escola, o lócus onde atuará profissionalmente.

“A UFRJ deve ter o mesmo orgulho de formar professores que tem de formar os seus médicos e engenheiros. O CFP tem esse objetivo”, sublinhou.

Com o Complexo, a UFRJ assumiu a responsabilidade de promover um salto de qualidade na formação docente. “Como instituição pública, temos a oferecer um ambiente de formação rico e denso, com inúmeras ações no ensino, na pesquisa e na extensão”, realçou.

Em sua palestra, a professora também frisou que um dos pressupostos do CFP é “a formação construída por dentro da profissão”. Ou seja, uma formação orientada por saberes e práticas inerentes à atividade docente.

“A ideia de vocação precisa ser desconstruída”, afirmou. Ser professor, segundo Carmen, pressupõe estudo, trabalho e um código profissional.

Ao refutar a ideia do professor como doutrinador, a pesquisadora assinalou que o autêntico saber docente é estratégico: “É uma forma de socializar o conhecimento científico, pensar o mundo e dialogar com a diferença”.

E acrescentou que a formação qualificada de professores – “que saibam lidar com a controvérsia e o respeito ao diferente” – é ainda mais crucial em um país, hoje, tão hostil à ciência, à educação e à cultura.

Formação dialógica é tema da abertura da Semana de Integração da Pedagogia

Texto: Coryntho Baldez

Foto: Coryntho Baldez

As teorias e políticas educacionais funcionam em sala de aula? Em muitos casos, há uma defasagem entre diretrizes e métodos oficialmente recomendados e as práticas educacionais adotadas pelos professores da rede pública.

A análise foi feita pela professora titular da Faculdade de Educação (FE) Ludmila Thomé de Andrade, na aula inaugural Por uma Perspectiva Dialógica da Formação de Professores, que abriu a Semana de Integração da Pedagogia, ontem (19/8) pela manhã, no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha.

A pesquisadora afirmou que os professores precisam dizer e defender o que fazem em sala de aula. E questionar, sem medo, a inadequação de políticas educacionais abstratas e distantes da realidade dos alunos.

Silvina Julia Fernández e a palestrante Ludmila Thomé de Andrade. Foto: Coryntho Baldez

 

“Os professores devem se tornar autores”

Ludmila contou que, na Inglaterra, uma pesquisadora estranhou o êxito do método fônico de alfabetização relatado por professores públicos em um estudo acadêmico e decidiu investigar os seus resultados em sala de aula. E constatou que os professores, na verdade, iam muito além da orientação oficial no processo de alfabetização dos alunos.

“Eles usavam música e literatura em seu trabalho, por exemplo, ultrapassando as limitações do método fônico, mas não mencionaram isso quando foram ouvidos para a pesquisa”, frisou. Assim como na Inglaterra, o método fônico vem sendo crescentemente adotado no Brasil.

Para superar essa discrepância entre as normas de ensino e as práticas reais dentro de sala de aula, Ludmila aponta que os professores devem se perceber como detentores de saberes profissionais e produzir conhecimento sobre o processo educacional. “Eles devem se tornar autores, mas o problema é como fazer isso”, questionou.

Valorizar os saberes docentes é essencial

Um dos primeiros passos para fazer da escola pública um lugar de produção teórica será valorizar, cada vez mais, os saberes docentes, entre os quais a formação inicial, a indução profissional – orientação nos primeiros anos da atividade docente – e a formação continuada, destacou a professora da FE.

“Não dá para achar que é suficiente fazer uma licenciatura para dar aulas. As crianças e jovens mudam, as escolas mudam e as políticas mudam”, observou.

Mas, nesse processo contínuo de formação, Ludmila alertou para o uso descabido de termos pejorativos, como reciclagem e competências.

“Os professores não são lixo para serem reciclados e transformados em outra espécie de ‘material’ e muito menos incompetentes para adquirirem novas competências”, completou.

Semana vai até dia 23

Na abertura, a vice-coordenadora do curso de Pedagogia da FE, professora Silvina Julia Fernández, disse que a Semana é um espaço transversal de acolhimento de novos estudantes e de troca acadêmica.

Em novo formato, o evento contou com mais duas aulas inaugurais no primeiro dia: O Curso de Pedagogia e a Formação de Professores: Entre Tensões e Perspectivas, com a professora Giseli Barreto da Cruz; e Complexo de Formação de Professores da UFRJ, com a diretora da FE, Carmen Gabriel.

Organizado pelo Núcleo de Planejamento Pedagógico (NPPL) da Pedagogia, a Semana vai até sexta-feira (23/8) e conta com debates, rodas de conversas, atividades culturais e oficinas. Veja a programação completa.

“É preciso reinventar a escola”, afirma Ana Maria Monteiro em aula inaugural do Cespeb

Texto: Coryntho Baldez

Foto: Pixabay

A escola, em geral, tem sido atacada e vista como um lugar perigoso. Uma instituição que não funciona e até deseduca. Mas, o país quer mesmo uma sociedade sem escolas e educadores?

A reflexão de Ana Maria Monteiro, professora da Faculdade de Educação (FE), chamou a atenção da plateia na aula inaugural do Curso de Especialização Saberes e Práticas na Educação Básica (Cespeb), no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha, na noite de 8/8.

Na contracorrente das vozes que rotulam a escola como anacrônica, perseguem a atividade docente e clamam pelo ensino domiciliar, a pesquisadora defendeu o direito à educação pública, com amplo acesso da população ao conhecimento científico e à formação voltada para a cidadania.

Em sua palestra Currículo e Docência: a Relação com o Saber em Questão, a professora do Programa de Pós-graduação em Educação da UFRJ lembrou que, pela Constituição, a educação é obrigatória dos 4 aos 17 anos.

“O ensino infantil, fundamental e médio é uma exigência constitucional. Para abrir espaço para o homeschooling, a educação no lar, seria preciso uma alteração da lei maior do país”, alertou.

No entanto, ela considera que a escola é atravessada por problemas estruturais e pedagógicos que precisam ser enfrentados. Para isso, lançou o desafio de reinventá-la aos estudantes – em sua maioria, professores da rede pública – que comporão a nova turma do Cespeb.

Em sua palestra, Ana Maria Monteiro defendeu o respeito à diferença dentro da escola

Laicidade da escola e ciência na educação

Com a legitimidade que adquiriu ao longo da carreira de professora e estudiosa de temas como formação docente e currículo, a docente da FE deu algumas pistas para a tarefa de recriar a escola.

Defendeu enfaticamente, por exemplo, em contraposição ao obscurantismo religioso, o caráter laico da instituição, que lida com pessoas de vários credos, e o livre debate da ciência no ambiente escolar.

“Os saberes do professor estabelecem um diálogo com a produção de conhecimento e, em certo sentido, a escola representa um importante espaço de divulgação científica”, salientou.

Lembrou, ainda, que a escola não tem mais o monopólio da difusão do conhecimento, com o avanço explosivo dos meios de comunicação, especialmente os digitais. Por isso, avalia como essencial que os profissionais da educação sempre se perguntem sobre quais conhecimentos irão ensinar.

É uma interrogação cuja resposta depende da autonomia pedagógica do educador em sala de aula e que recai, segundo a pesquisadora, no debate sobre o currículo.

“O currículo é a expressão de uma seleção, organização e distribuição de conhecimentos. Portanto, é uma questão didática, mas também política, pois implica em conteúdos selecionados no âmbito da cultura mais ampla”, afirmou.

Citou como exemplo a questão ambiental, que possui concepções distintas e em disputa na sociedade, tanto no plano nacional como internacional. “Falar com as crianças e adolescentes sobre a preservação do meio ambiente, fazer trabalhos de educação ambiental, é importante ou não? Eles precisam saber disso ou não?”, indagou.

No âmbito do ensino da História do Brasil, a questão étnico-racial, segundo ela, sempre foi invisibilizada e ausente. A abordagem do tema em sala de aula se restringia à época da escravidão e sumia dos cursos nos períodos históricos subsequentes. “Só a partir de muita luta dos movimentos sociais, passou a ser tratada com mais propriedade nos currículos”, exemplificou.

Os novos alunos prestigiaram a aula inaugural do Cespeb, que oferece vagas, preferencialmente, a professores da rede pública básica

Homogeneização X respeito à diferença

Segundo Ana Maria Monteiro, para reinventá-la, é preciso pensar também se a escola é um lugar de consenso ou de dissenso. A pesquisadora a enxerga como uma instituição de ideias necessariamente conflitivas e plurais: “É um espaço do contraditório no sentido de que se deve sempre problematizar e colocar em questão alguns conhecimentos e certas verdades”.

É a partir dessa relação aberta e questionadora com o conhecimento que, segundo a professora, surgem formas inovadoras de enxergar o mundo.  Ela assinala, ainda, que a homogeneização da escola castra o debate em torno da identidade e da diferença, essencial à sua reinvenção.

Ao lado das três dimensões do ato educativo – a qualificação, a socialização e a subjetivação (veja aqui a palestra completa) –, a docente diz que as identidades dos sujeitos também vão sendo constituídas. E lidar com a diferença é, hoje, uma questão crucial dentro da escola.

“Não estamos falando aqui em processos de homogeneização, de realizar uma educação que torna iguais os pensamentos e os interesses de todos. Entendemos que somos diferentes e que a diferença faz parte do processo de subjetivação”, sustentou.

Cespeb tinha o espírito do Complexo desde o início

Ao final, a palestrante lembrou que o Cespeb, coordenado pelas professoras Ligia Karam, da Faculdade de Educação, e Rozana Gomes, do Colégio de Aplicação (CAp), foi uma iniciativa conjunta das duas unidades para valorizar a relação entre a universidade e a escola pública.

“Foi esse o espírito, inclusive, que levou à criação do Complexo de Formação de Professores (CFP), institucionalizado em dezembro do ano passado”, sublinhou.

Segundo ela, o espaço virtual e comum que reúne a universidade e a escola pública é exatamente o que se busca construir por meio do Complexo, já que nem uma nem outra formam, isoladamente, os professores.

“De alguma maneira e de forma pontual, já fazíamos isso, mas não teorizávamos sobre essa questão como hoje. O Cespeb já era uma experiência nesse sentido desde 2008. Além de compreender a docência como profissão, com saberes próprios, adota a horizontalidade como princípio”, completou.

Por fim, Ana Maria Monteiro frisou que, no atual cenário de novos aprendizados e desafios na educação, como a viabilização do CFP, o melhor a fazer para seguir em frente é assimilar uma antiga lição de Paulo Freire: “Ninguém caminha sem aprender a caminhar”.

Cartografia traça as múltiplas rotas da formação de professores

Texto: Coryntho Baldez

Foto: Pixabay

Soymara Vieira, professora da 1ª série do ensino fundamental na Escola Nossa Senhora da Penha, em Niterói, participou, em 2017, do projeto de pesquisa e extensão Conversas entre professorxs: alteridades e singularidades (ConPAS), criado há 10 anos por professoras do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ.

Após colaborar como autora de um artigo para o livro “Narrativas: Histórias da/na escola” – uma ação do projeto –, ela deu o comovente depoimento que transcrevemos abaixo.

“Ter minha experiência registrada em livro me empodera. É como se houvesse, enfim, o reconhecimento de que professores da educação básica produzem conhecimento (…) Eu amei o livro. Para a filha de açougueiros da cidade mais pobre da baixada fluminense, foi um sonho realizado poder apresentar para minha mãe: – Olha aqui, mãe! O meu nome no livro!”. Continue lendo Cartografia traça as múltiplas rotas da formação de professores

Trabalho precário e professor tarefeiro, uma realidade que impõe nova formação docente

Ilustração: Zop
Texto: Coryntho Baldez

À parte metodologias que, para os críticos, mascaram a realidade, os números oficiais atestam: superar o trabalho precário dos professores da educação básica no Brasil será uma tarefa árdua. O rendimento médio dos profissionais graduados da rede pública, por exemplo, é de R$ 3.823,00, ou seja, 31% menor do que o salário médio – de R$ 5.477,05 – de outras categorias com curso superior, segundo a pesquisa Pnad Contínua 2018, divulgada em junho pelo IBGE. Continue lendo Trabalho precário e professor tarefeiro, uma realidade que impõe nova formação docente

Clare Brooks ministra conferência na Faculdade de Educação

Na última segunda-feira (08/07), a professora Clare Brooks, da University College London, ministrou a conferência Seria possível uma visão global da educação geográfica? na Faculdade de Educação da UFRJ.

Este evento foi uma realização conjunta do Seminário Anísio Teixeira do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UFRJ e do Seminário Geografia & Educação do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRJ, que trouxeram a professora Clare Brooks ao Rio de Janeiro buscando aprofundar o debate sobre a Educação Geográfica e estreitar laços de cooperação.

Confira aqui o registro da conferência.