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Artes visuais em tempos de pandemia

Texto: Wilson Cardoso
Professor de Didática e Prática de Ensino de Artes Visuais e Desenho
Faculdade de Educação / Universidade Federal do Rio de Janeiro

Nesse período de quarentena venho acompanhando a participação de artistas e de diferentes setores do campo das artes no contexto mundial impactado pela disseminação do coronavírus SARS-coV-2, responsável pela doença Covid-19 (acrônimo do termo “doença por Corona Vírus), que segundo especialistas pode vir a ser a maior pandemia de todos os tempos.

Disso resultou um levantamento inicial centrado em registros imagéticos e com breves apresentações e comentários reflexivos. Ele foi produzido aproveitando-se do fato de ser essa a primeira pandemia que a humanidade enfrenta podendo contar com grande fluxo de informações disseminadas por multimeios e vias de comunicação poderosas.

A observação do momento presente me levou a pesquisar também sobre como as artes visuais refletiram as pandemias do passado e como projetaram cenários de futuro marcados por surtos e pandemias. Dessa forma, esse trabalho se divide em três partes guiadas por tempos históricos: a primeira parte sobre o presente, a segunda parte sobre o passado e a terceira parte sobre o futuro.  Os seus títulos são os seguintes:

1ª Parte. Arte Covid, as artes visuais em combate ao coronavírus

2ª Parte. As artes visuais, a Peste Negra e a Gripe Espanhola.

3ª Parte: Cinema, vírus e pandemias.

Confira aqui.

 

Pandemia expõe impasses da Educação à Distância

Ilustração: Pixabay

Texto: Coryntho Baldez

A pandemia do novo coronavírus fez explodir o uso de sistemas e aplicativos desenvolvidos para atividades pedagógicas remotas. O fenômeno se acelerou na rede básica de ensino após o Conselho Nacional de Educação (CNE) dar sinal verde, em 18 de março, para a realização de aulas online a partir do ensino fundamental.

Com escolas fechadas pela política de isolamento social, a utilização maciça de ferramentas digitais em substituição às aulas presenciais expôs as insuficiências da Educação à Distância (EaD) no país. Algumas delas são a falta de formação específica para professores e o precário acesso da população a recursos tecnológicos, como computadores e internet de qualidade.

Especialistas temem, ainda, que as políticas oficiais se curvem a interesses de fundações privadas e grandes plataformas digitais para naturalizar o uso da EaD na educação básica após a pandemia. Motivada por uma situação excepcional, a posterior utilização em larga escala da modalidade poderia servir para reforçar uma formação pragmática e acrítica.

Mercado de pacotes educacionais preocupa

Joaquim da Silva, membro do Comitê Permanente do Complexo de Formação de Professores (CFP) da UFRJ, considera que, mais à frente, negócios privados ligados ao mercado educacional podem, de fato, vir a se beneficiar da atual crise de saúde pública.

“Acredito que sim. Sabemos que há o interesse de grandes corporações na venda de pacotes educacionais que prometem, sem cumprir, uma eficiência a toda prova do ensino e da aprendizagem de conceitos”, afirma.

É um interesse, diz, que se alia a outro: o de se reduzir o papel político do professor, o profissional encarregado, segundo ele, de mediar o processo formativo do aluno e que vai muito além da aprendizagem de conceitos.

“Na verdade, o problema não está na EaD, mas no seu uso de forma desvinculada da prática profissional docente em toda a sua amplitude”, analisa Silva, que também é assessor da Pró-Reitoria de Graduação (PR-1) para o CFP.

Anna Thereza, diretora adjunta de Licenciatura, Pesquisa e Extensão do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ, também vê com preocupação o uso indiscriminado da EaD após a pandemia.

“Creio que o risco sempre existe, sobretudo em um contexto de tentativa anterior de implementação da educação domiciliar e do constante ataque à educação, com corte de verbas e um discurso que muitas vezes demoniza a escola e seus agentes”, condena.

Além disso, acrescenta, é sabido que a iniciativa privada se beneficiaria com o uso da EaD. Ela lembra que algumas secretarias de educação de estados e municípios já adotam programas criados pela Fundação Lemann e pelo Instituto Ayrton Senna, por exemplo.

“Algumas organizações fornecem vídeo-aulas, apostilas e outros materiais que anulam a presença do professor e retiram tanto o protagonismo estudantil quanto a autoria docente do processo de ensino-aprendizagem”, critica Anna Thereza, que integra o Comitê Permanente do CFP.

“A internet foi tudo o que nos restou”

No Rio de Janeiro, a rede estadual anunciou o uso da ferramenta Google Classroom para aulas virtuais, a partir do dia 6 de abril. Já o município do Rio disponibilizou um aplicativo com recursos de apoio pedagógico para os estudantes durante o período de isolamento social

Escolas do Rio de Janeiro estão com as aulas suspensas. Foto Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Tamara Lázaro, coordenadora pedagógica da Escola Municipal Albino Souza Cruz, localizada na comunidade de Manguinhos, considera que a pandemia tornou inevitável o uso de tecnologias virtuais.

“Penso que é imprescindível o esforço para a manutenção do vínculo da criança com a escola e o universo letrado, o que não necessariamente se daria através de aulas virtuais, embora a ferramenta ‘internet’ seja tudo o que tenha nos restado neste momento”, comenta.

Contudo, ela salienta que muitas crianças tiveram o seu primeiro contato com a tecnologia digital na escola. “Falo sob a ótica de uma educadora popular da educação pública”, frisa Tamara, eleita para o Conselho Gestor Intersetorial (CGI) da Fiocruz, que discute Educação, Saúde e Assistência no território de Manguinhos.

“Há alguns anos, tornou-se um pouco mais acessível o uso de dispositivos tecnológicos e da internet. No entanto, não há como dizer que todas as camadas foram atingidas por esse avanço”, destaca.

Segundo ela, uma família que possui apenas um dispositivo eletrônico, com pacote de internet pré-pago, e tem três crianças necessitando de aulas online diárias, não estaria contemplada por uma educação à distância adequada.

Sobre o uso do aplicativo disponibilizado pela Secretaria, considera a iniciativa válida, embora esbarre nas dificuldades elencadas acima. Tamara conta que os gestores e o corpo docente da unidade escolar são os responsáveis pelo diálogo com os responsáveis e a inserção do conteúdo, colocando-se à disposição para as dúvidas dos estudantes.

Professor fazer ‘live’ não resolve

Joaquim Silva trabalha com EaD no curso de licenciatura em Química da UFRJ há mais de 10 anos. Ele diz que a modalidade pode ter um papel muito significativo durante a pandemia, desde que se considerem as suas especificidades.

Joaquim da Silva, do Comitê Permanente do Complexo de Formação de Professores (CFP) da UFRJ. Foto: Jornal da Adufrj

Segundo o docente, a EaD requer materiais com linguagem e estética diferentes daqueles utilizados nas aulas presenciais. As formas de interação com os alunos, afirma, também se dão por outros canais e com outra demanda de tempo: “Não adianta o professor achar que fazer uma ‘live’ resolve o problema”.

O desafio, pelo contrário, é imenso – diz Silva – e exige um envolvimento muito maior do professor, “que precisa ter uma formação básica como docente dessa modalidade antes de se aventurar por ela”.

Já para Anna Tereza, a EaD surge, nesses tempos de pandemia, como um ilusionismo. Tal como o mágico que retira o coelho da cartola, ela afirma que os profissionais da educação tiveram que inventar exercícios, produzir extensas páginas com conteúdos de suas variadas disciplinas, passar a fazer vídeos e forjar uma relação virtual que até então não existia.

“Confunde-se, muitas vezes, a ação de informar com a de produzir conhecimento. Essa última pressupõe uma postura ativa das partes na partilha de ideias, na construção conjunta e na elaboração de proposições às várias inquietações”, analisa.

Professores e profissionais da educação, segundo ela, tiveram que buscar soluções para uma prática que não cabe no virtual.

“No lugar de se entendê-lo como espaço de experimentação, mantiveram-se atividades escolares sob uma mesma estrutura disciplinar e, no caso da educação básica, segmentada por faixas etárias e séries”, critica.

A atual situação exige dos estudantes e das famílias – prossegue – uma reinvenção da rotina escolar fora da escola, o que implica em reinvenção da rotina da casa.

“Uma prima me disse que a filha dela não se interessa pelo conteúdo escolar fora da escola. Ela associa a casa à brincadeira, ao lazer, o que, me parece, é natural”, relata.

Anna Thereza acredita que a EaD utiliza ferramentas que podem ser interessantes na manutenção do vínculo com estudantes durante a pandemia, ou mesmo no decurso do ano letivo, com as aulas presenciais normalizadas.

O CAp, por exemplo, tomou a iniciativa de desenvolver um site interativo para os professores e estudantes: o CAp-UFRJ na Quarentena. O objetivo principal, segundo ela, é estabelecer um espaço de manutenção de vínculo e mútua acolhida diante do contexto de isolamento social provocado pela pandemia. Ele funcionará como uma plataforma de partilha das experiências vivenciadas durante o período de confinamento. (Saiba mais aqui).

Mas, para Anna Thereza, como substituta do ensino presencial, a EaD se torna um problema.  A escola continua sendo para muitas crianças e adolescentes, segundo ela, o local primordial de interação social, onde se deparam com a diferença de pensamento e de formas de ser e estar.

Anna Thereza, diretora adjunta de Licenciatura, Pesquisa e Extensão do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ. Foto: Arquivo Pessoal

Ela lembra também que a escola é um local, sobretudo, de formação de sujeitos, da prática da escuta, do fomento ao diálogo e do reconhecimento e do respeito ao outro.

“A partir do momento que me vejo frente ao outro, passo a reconhecê-lo enquanto sujeito, e não enquanto avatar”, afirma.

EaD não pode ser usada de forma fortuita

Joaquim Silva lembra que o Complexo de Formação de Professores apoiou o posicionamento da UFRJ em relação à suspensão das aulas e às atividades remotas.

O Complexo endossou a diretriz da Universidade – continua – até por entender a seriedade da modalidade EaD, “que não pode ser utilizada fortuitamente nesse momento já tão complicado”.

Em nota divulgada em 28 de março, o Comitê Permanente do CFP ressaltou que “o calendário futuro seguirá abrangendo o conjunto das licenciaturas e deverá estar em harmonia com o calendário das redes de educação básica”.

Segundo o professor, deve-se, no entanto, avançar no debate sobre o que fazer durante o período da quarentena. Ele defende que toda e qualquer decisão tem que ter por base o princípio da isonomia dos discentes.

“É preciso haver garantias de que todos terão igual acesso ao material e que as adaptações serão feitas considerando as especificidades da realidade de cada um. Não basta almejarmos a igualdade, é preciso promover a equidade ao longo de todo o processo”, completa.

Entrevista da diretora do CAp sobre o site interativo

CAp-UFRJ cria site para manter vínculo com comunidade escolar na quarentena

Texto: Coryntho Baldez

O Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ lançou um site interativo para conectar estudantes, familiares, docentes e técnicos durante a pandemia.

O CAp-UFRJ na Quarentena está online desde 20 de abril e funcionará como uma plataforma de partilha das experiências vivenciadas durante o período de confinamento. Mas não substituirá as aulas presenciais.

“O objetivo é estabelecer um espaço de manutenção de vínculo e mútua acolhida diante do isolamento social”, esclarece Anna Thereza, diretora adjunta de Licenciatura, Pesquisa e Extensão do Colégio do CAp-UFRJ.

Nesta entrevista ao Setor de Cultura, Comunicação e Divulgação Científica e Cultural (Secult) da Faculdade de Educação da UFRJ, ela revela ainda que o objetivo mais ambicioso da iniciativa é criar a compreensão de que “a escola se faz junto, que a escola somos todos nós”.

Secult – O CAp lançou recentemente um site interativo para a comunidade escolar. Qual o objetivo dessa ferramenta?

Anna Thereza – É estabelecer um espaço de manutenção de vínculo e mútua acolhida diante do contexto de isolamento social provocado pela pandemia. Igualmente, ele se apresentará como um espaço de possibilidades pedagógicas, entendendo que a escola vai além das disciplinas curriculares e das divisões por segmentos e séries.

Secult – Como funciona o site?

Anna Thereza – Como uma plataforma de partilhas das experiências vivenciadas durante esse período de confinamento, como a saudade da escola e de seus variados agentes, as novas formas de experimentar o tempo, o espaço e a relação com os outros. Diante disso, acrescentam-se os modos de nos perceber e as possibilidades de nos reinventar.

Secult – Que outros conteúdos serão partilhados?

Anna Thereza – Serão partilhadas, igualmente, páginas e materiais que possam ser interessantes para toda a comunidade escolar durante o momento da pandemia. É uma forma de apresentar sites com informações confiáveis e entrevistas que apresentam outras perspectivas possíveis de mundo.

Secult ­ – O site será um meio de manter o vínculo, mas estará também associado, de alguma maneira, ao conteúdo curricular?

Anna Thereza – A partir de proposições realizadas por profissionais da educação do CAp, o site será um convite à interação para toda a comunidade escolar, por meio da partilha sobre o desconhecido e as novas descobertas ao ficar em casa. Será, principalmente, uma forma de nos aproximar diante do isolamento. Sabemos, no entanto, que nem toda a comunidade escolar terá, infelizmente, acesso ao site. Por isso, as proposições não têm um caráter obrigatório, e tampouco estarão associadas às aulas dadas e que se darão futuramente. Seguimos, em paralelo, buscando formas de nos aproximar das famílias que não possuem acesso à internet.

Secult – Qual a expectativa da direção do CAp em relação ao site?

Anna Thereza – Há várias expectativas. Como trabalho interno inicial, temos o exercício de nos ver enquanto totalidade, algo sempre difícil com a fragmentação do ensino por segmentos e séries e por áreas do conhecimento. Assim, uma primeira expectativa é ampliar nossas possibilidades pedagógicas e a nossa potência com o fazer coletivo.  Temos a expectativa de criar um ambiente amplo de aproximação com estudantes e familiares, normalmente limitado à turma e professores que atuam diretamente com os estudantes. Outra expectativa é nos aproximar enquanto corpo de profissionais da educação. Trata-se de um trabalho realizado por professores e técnicos, algo até então pouco experimentado. Mas sendo os maiores objetivos o diálogo e a partilha com as famílias, e estando aberto à mútua troca, creio que a expectativa mais ambiciosa e principal é criar uma compreensão de que a escola se faz junto, que a escola somos todos nós. Veremos.

(Veja o vídeo de lançamento do site)

Corpo e educação

Nesta época de pandemia e isolamento social, a Faculdade de Educação da UFRJ apresenta o espaço virtual #FEContraCOVID19, com o objetivo de compartilhar ideias, impressões, anseios e perspectivas com a comunidade em geral. E que tal começar com um olhar sobre o nosso corpo? A professora Silvia Soter nos convida a uma reflexão sobre um tema que nos é bastante imediato, aproveitando também para divulgar um link com aulas que podem ser bastante úteis neste período de isolamento.

“Como vai você, nesses tempos de recolhimento? Como anda o seu corpo? Tem percebido mudanças em você, nessas semanas?

Estamos atravessando um momento difícil e exigente. Interrompemos abruptamente nossas atividades externas, nos vimos obrigados a organizar novas rotinas e lançar mão de recursos que nem sempre nos parecem acessíveis. A atenção à nossa casa e aos nossos familiares nos impõe um outro ritmo para os dias. Como você tem se cuidado?

Em nossas aulas de linguagem corporal na educação, no Curso de Pedagogia, sempre conversamos sobre a importância de levar em conta a dimensão corporal nos processos educativos. Não apenas enfatizando a necessidade e os benefícios das atividades físicas e expressivas, mas sobretudo reforçando a atenção ao que percebemos de nós e dos outros, em nossas várias interações, em diferentes contextos.

Para escutar o outro é preciso aprender a se escutar. Para perceber o outro tenho, antes, que me perceber e melhor conhecer minhas possibilidades e limites. E como a consciência corporal se ensina e se aprende, partilho com vocês algumas experiências para esses dias. São pequenas aulas que você e os seus podem fazer em casa, para perceber o corpo e encontrar mais conforto e equilíbrio.

Fique em casa! Fique em casa e aproveite essa casa-corpo!”

Esta foi uma contribuição de Silvia Soter, doutora em Educação pela UFRJ e professora adjunta da Faculdade de Educação da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Dança da mesma instituição. Se você gostou desta colaboração, aproveite para compartilhar o link da postagem entre seus contatos ou nas redes sociais, incluindo a hashtag #FEContraCOVID19. Até a próxima e fique bem.

Clique aqui para assistir.

PARA LER COM E PARA AS CRIANÇAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL

O Grupo de Estudos e Pesquisas em Infância, linguagem e Educação-GEPILE, que desenvolve suas atividades no Laboratório de Linguagem, Leitura, Escrita e Educação (Leduc-UFRJ), coordenado pela professora Patrícia Corsino, considerando que neste momento de quarentena frente ao COVID-19 é importante que as crianças pequenas possam diversificar suas atividades em casa, selecionou algumas produções de acesso gratuito pela internet. Confira aqui.