“O Brasil precisa respeitar o outro”, diz nova professora emérita da Faculdade de Educação

 

Foto: Pixabay

Texto: Coryntho Baldez

Neta de refugiados da perseguição contra judeus na Europa do início do século XX, Ana Ivenicki se formou em Ciências Biológicas na UFRJ em 1979.

De lá para cá, fez carreira acadêmica na área da educação. Tornou-se professora da UFRJ em 1997 e se dedicou à pesquisa em Multiculturalismo. A origem familiar ajudou-a a entender o outro e a respeitar a diversidade.

Professora titular da Faculdade de Educação (FE) há três anos, Ana Ivenicki foi aclamada professora emérita da UFRJ na sessão de 27 de junho do Conselho Universitário (Consuni).  “Foi o coroamento da minha carreira e fiquei muito emocionada na ocasião”, revela.

A sessão oficial de entrega do título será nesta quinta-feira (10/10), às 16h, no Salão Pedro Calmon, no Palácio Universitário, na Praia Vermelha.

Nesta entrevista ao Setor de Cultura, Comunicação e Divulgação Científica e Cultural (Secult) da Faculdade de Educação (FE), ela fala sobre a sua trajetória acadêmica e defende os estudos multiculturais em um país com a dimensão e a pluralidade do Brasil.

Exalta, ainda, a criação do Complexo de Formação de Professores da UFRJ. Em um contexto de políticas “neoconservadoras” em várias áreas e que atingem a educação, classificou a iniciativa como “muito importante”.

Secult – Fale um pouco sobre a sua trajetória e em que momento decidiu se dedicar à área da educação?

Ana Ivenicki – Parece um clichê, mas sempre gostei da ideia de ser professora. Fiz a licenciatura na UFRJ em Ciências Biológicas e, pelo modelo da época, cursei três anos de conteúdo específico no Fundão e mais um ano de disciplinas pedagógicas na Praia Vermelha. E acabei me apaixonando pelas aulas na Faculdade de Educação e também pela arquitetura do prédio do Palácio Universitário.

Secult – Foi então que decidiu pela carreira acadêmica?

Ana Ivenicki – Sim, fiz o mestrado em educação pela PUC-Rio e o Doutorado pela Universidade de Glasgow, na Escócia e enveredei pela área da educação. O conteúdo específico de Biologia foi ficando para trás.

Secult – Essa escolha teve influência familiar? As suas origens e a formação em casa tiveram algum papel em sua trajetória acadêmica?

Ana Ivenicki – Engraçado, não teve, apesar de minha mãe ter sido professora de inglês e o meu pai de hebraico. E a minha origem familiar é diversificada. Meu avô materno era libanês e a avó materna egípcia. E meu avô paterno era russo e a avó polonesa…

Secult – Então, os seus estudos sobre Multiculturalismo tiveram ao menos uma inspiração familiar?

Ana Ivenicki – Aí possivelmente sim, pela minha formação de vida como neta de imigrantes refugiados, que abandonaram as suas terras durante I Guerra Mundial devido às perseguições aos judeus. Na Rússia, por exemplo, havia muitos pogroms [perseguição em massa de grupos étnicos]. Isso tudo me fez entender como é a gente se sentir o outro.

Secult – Essa ideia foi se consolidando aos poucos?

Ana Ivenicki – Se consolidou quando comecei a cursar o mestrado e passei a gostar da literatura sobre oprimidos e a estudar a educação para a justiça social. Mas foi apenas no doutorado que a educação multicultural virou para mim um objeto acadêmico. É uma educação que valoriza a diversidade e desafia preconceitos.

Secult – E qual a importância desses estudos multiculturais em um país como o Brasil?

Ana Ivenicki – O Brasil é um país multicultural por excelência porque foi formado na diversidade. Tínhamos os povos indígenas, os europeus conquistadores, várias levas de imigrantes japoneses, italianos, e as imigrações forçadas de africanos.  E temos muitos refugiados. Até certo tempo atrás, o Brasil não se reconhecia como um país de imigrantes. Mas isso já acontece. Temos hoje imigrantes sírios, venezuelanos. Então, a importância de desafiarmos o preconceito é cada vez maior. Não só com relação ao imigrante, mas àquele que é percebido como o outro.

Secult – Essa é uma perspectiva que envolve outras abordagens?

Ana Ivenicki – Sim, por exemplo, a questão racial e a questão da homofobia. A abordagem multicultural é muito importante para um país da dimensão do nosso, com essa pluralidade. Considero que a educação e, mais especificamente, a formação de professores, é um palco essencial nessa luta para respeitar o outro. Isto porque é a diversidade que nos enriquece.

Secult – Qual o papel da escola pública no enfrentamento de situações de exclusão, de conflitos culturais e de preconceito contra grupos sociais ou raciais?

Ana Ivenicki – É uma pergunta importante. A escola pública nossa é de qualidade. Nas minhas palestras e em programas de formação continuada, tenho visitado muitas escolas. O que vejo é um trabalho de muita dedicação e qualidade. Existem projetos maravilhosos, de perspectiva plural, com crianças que vêm, por exemplo, de comunidades onde a violência predomina. Então, a escola pública é o espaço da diversidade, e o seu papel para ampliar o discurso do respeito ao outro é central.

Secult – Os projetos e ações nas escolas, apesar de importantes, esbarram hoje muitas vezes em políticas conservadoras, de viés misógino ou homofóbico, por exemplo.  Como enfrentar essa situação?

Ana Ivenicki – Sim, esse é um ponto importante. Uma coisa é desenvolver projetos curriculares multiculturais nas escolas públicas com o apoio de políticas macro. Outra é desenvolver esses projetos contra a maré. Infelizmente, não apenas o Brasil, mas o mundo está entre tensões. E existem perspectivas herméticas ao que é indiscutível. A diversidade está aí, não dá para fechar os olhos. A escola pública recebe crianças criadas por casais homossexuais, por exemplo. Não há como impor um padrão único de comportamento. Temos que continuar com os nossos projetos. Ainda temos instituições democráticas e movimentos sociais fortes, no Brasil e no mundo, que podem impor um revés a essa perspectiva conservadora. Não há mal que sempre dure.

Secult – E qual a sua avaliação sobre o Complexo de Formação de Professores da UFRJ, que defende a aproximação da universidade com a escola pública?

Ana Ivenicki – Eu creio que a universidade, ao fazer parcerias com a rede pública de ensino, com as secretarias de educação, e promover educação continuada, ela está realmente articulando a teoria ao chão da escola. É aí que vamos ver a importância de um currículo multicultural. E gostaria de aproveitar essa oportunidade para parabenizar toda a equipe que está envolvida no projeto do Complexo, os professores e a direção da Faculdade de Educação. A iniciativa é muito importante, especialmente em um contexto em que macropolíticas neoconservadoras estão impondo uma agenda contrária a uma realidade que é multicultural.

Secult – E de que modo as ações do Complexo podem fazer diferença?  

Ana Ivenicki – Quanto mais a nossa ação for coletiva e em rede, e não esparsa e individual, mais teremos a probabilidade de sucesso para que as macropolíticas levem em conta a realidade brasileira. Creio que o Complexo tem grande importância porque valoriza as escolas. É a universidade fazendo o diálogo entre teoria e prática e prática e teoria, e não se fechando em uma torre de marfim. Isso contribui não só para a formação continuada dos professores da rede pública como também dos estudantes de licenciatura e nós mesmos, como professores formadores. O Complexo expressa o compromisso social da universidade, que se dá por um ensino de qualidade, pela pesquisa que faz avançar o conhecimento e pela articulação com a sociedade por meio da extensão.