Seminário debate desafios da formação na escola pública

A exposição de bordados foi uma atração do seminário. As peças foram feitas por docentes da rede básica em homenagem aos professores que marcaram a sua vida. Foto: Coryntho Baldez

Texto: Coryntho Baldez

No centenário prédio da Escola de Formação Paulo Freire, no Centro, o Complexo de Formação de Professores (CFP) da UFRJ realizou no dia 24/9 – em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio – o II Seminário A Escola como Espaço de Formação. O evento contou com a presença de diretores, coordenadores pedagógicos e professores de 19 escolas da rede pública.

Após acolhedora recepção, com direito a café da manhã e piano ao vivo, os presentes se dividiram em grupos de trabalho para discutir as potencialidades e as perspectivas da escola pública como importante lócus para a formação de professores.

Tempo para formação é escasso

A necessidade de integrar os profissionais da educação e uma maior compatibilização entre o “tempo em sala de aula” e o “tempo de formação” foram sugestões unânimes feitas pelos grupos. Houve ainda outro consenso: as soluções para os problemas pedagógicos não podem ser genéricas, mas norteadas pela realidade social e cultural de cada escola.

“Os nossos professores devem ter um horário específico para a formação que não concorra com a carga letiva”, disse Geisi Nicolau, pedagoga e diretora do Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (Creja), escola-piloto do CFP.

Para Geisi, o Complexo ajudará a rede pública a superar os dilemas cotidianos que enfrenta no campo da formação docente: “A valorização do diálogo entre a universidade e a escola é importante para encontrarmos soluções conjuntas para os desafios que temos no dia a dia”.

O objetivo da universidade, de fato, não é ir à escola para oferecer respostas prontas, reforçou Claudia Iglesias Ribeiro, do suporte estratégico do CFP. “Não há saber superior e esse tipo de seminário expressa o nosso importante princípio da horizontalidade”, frisou a Técnica em Assuntos Educacionais da UFRJ.

Claudia Iglesias coordenou o debate dos grupos de trabalho. Foto: Coryntho Baldez

Claudia também concordou com a diretora do Creja de que o tempo do professor para se dedicar à formação continuada é escasso, especialmente daqueles que possuem duas matriculas na rede pública. “Descobrir esse tempo precisa depender menos de inciativas pessoais e mais do planejamento do poder público”, destacou.

Em outra atividade do encontro, Graça Reis, vice-diretora do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ, fez uma apresentação intitulada Docência nos Fios da Memória.

Trata-se de uma iniciativa pela qual o profissional da rede básica, por meio da arte do bordado, tece literalmente um tributo ao professor que marcou a sua trajetória de vida.

A ideia da homenagem surgiu, segundo Graça, em razão do atual “massacre” à docência, que convive com a precarização e ainda sofre acusações infundadas de doutrinação de estudantes.

O resultado do trabalho foi apresentado por meio de uma exposição com 80 bordados, que enfeitou os corredores da imponente edificação da Escola Paulo Freire.

Graça Reis apresentou o projeto Docência nos Fios da Memória. Foto: Coryntho Baldez

Assustando as estruturas de poder

Em seguida, na palestra Formação – Do que Estamos Falando?, Carmen Gabriel, diretora da Faculdade de Educação (FE) e coordenadora do Complexo, ressaltou que, embora a proposta de aproximar escola e universidade não seja nova, a ambição de transformá-la em política sistemática e de largo alcance é sua força diferencial.

“A aproximação desses dois espaços só acontecerá com articulação, pertencimento e engajamento de todos nós, em todos os níveis”, sustentou.

Além da conexão entre os “territórios” acadêmico e escolar, a professora titular da FE também apontou como essencial a articulação entre formação inicial e continuada e entre sujeitos e saberes.

Por isso, acrescentou Carmen, a ideia da horizontalidade – “que assusta algumas estruturas de poder na academia e nas secretarias de educação” – é tão cara ao projeto do Complexo.

O que se busca questionar por meio desse princípio, segundo ela, são algumas hierarquizações cristalizadas, como a que supostamente existe entre saberes que, na verdade, são apenas distintos. “Por isso, não temos receita pronta”, frisou.

No seminário, Carmen Gabriel fez uma palestra intitulada Formação – Do que Estamos Falando? Foto: Coryntho Baldez

A pesquisadora disse, ainda, que o grande desafio do Complexo é consolidar a ideia de ‘casa comum’ e criar coletivamente as regras para o seu funcionamento, com a participação de todos os sujeitos. “Queremos fazer uma política com vocês, não para vocês”, arrematou.

O papel do afeto na inclusão de alunos

No seminário, também houve relatos de experiências de formação e espaço para reflexão sobre o professor-pesquisador.

Deise Guilhermina, por exemplo, vivenciou o processo de inclusão de 30 alunos portadores de necessidades educativas especiais na Escola Maria Baptistina Duffles Teixeira Lott, em Vista Alegre. Ela voltou a dar aulas lá em 2018, após quatro anos afastada para cursar Doutorado em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Deise contou que o “belíssimo trabalho” desenvolvido pelos professores teve o apoio decisivo da Agente de Apoio à Educação Especial. “Aprendi com os relatos e experiências dos demais colegas assim como com a equipe de direção”, disse.

Marcou-a, especialmente, uma conversa com a diretora-adjunta da escola, que, segundo ela, “creditou o sucesso do trabalho ao entrosamento com as professoras das salas de recursos que atendem os alunos e à coesão do grupo”.

Deise acrescentou que um dos principais ingredientes do êxito da escola – “não só no que se refere à inclusão, mas em todas as propostas que desenvolve” – é o afeto.

“A escola desenvolve uma prática pedagógica marcada pela afetividade e a dialogicidade, como propõe Paulo Freire”, completou.

Daniel de Oliveira e Deise Guilhermina fizeram relatos de experiências e refletiram sobre o papel do professor-pesquisador. Foto: Coryntho Baldez

Diálogo para pensar a prática

Já Daniel de Oliveira, coordenador pedagógico do Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (Creja), disse que ser professor-pesquisador significa assumir uma postura investigativa sobre a própria prática docente.

“É preciso desnaturalizar os saberes e fazeres a partir de um movimento de reflexão sobre a ação docente, sobre o que nos desafia e instiga no cotidiano”, observou. Esse movimento, segundo ele, pressupõe um tempo para viver e pensar sobre a experiência e também, quando possível, o diálogo entre pares.

É o diálogo, para Oliveira, “que possibilita o compartilhamento de experiências e que outros olhares ajudem a problematizar a prática, ou seja, a pensar sobre as trajetórias de formação e os fundamentos que utilizamos para dar base ao nosso fazer docente”.

Complexo qualifica espaço da escola

Márcio da Costa, diretor da Escola Paulo Freire e professor de Sociologia da Educação da UFRJ, elogiou o seminário e a iniciativa de criar o Complexo. Há alguns anos, ele costumava dizer que a UFRJ precisava “criar uma Coppe” – o instituto de excelência em Engenharia da Universidade – na área da educação.

“É uma tarefa muito importante para ficar restrita a uma unidade. Assim como aconteceu com a engenharia, a educação precisa ganhar um espaço de formação denso e de qualidade”, frisou.

O Complexo, diz ele, poderá ser capaz de congregar pessoas de várias unidades que têm preocupação com as questões referentes à formação de professores, tanto no âmbito da docência como da pesquisa.

Morgana Rezende, gerente da Equipe de Formação Inicial da Escola Paulo Freire, avaliou que o seminário é importante porque, para ela, o professor se constitui na escola e, muitas vezes, não se vê representado na produção acadêmica.

“Considero que essa conexão da universidade com a rede pública, como propõe o Complexo, transforma a escola em espaço qualificado e aproxima teoria e prática na área educacional”, afirmou.

Maria Eny: “O Complexo permite refletir sobre capacitação de professores e planejamento”. Foto: Coryntho Baldez

Já Maria Eny, diretora da escola municipal Paraguai, em Marechal Hermes, salientou que o CFP dá vez e voz aos atores participantes do processo educacional.

“A partir dessa iniciativa, tanto a universidade como a escola básica estão refletindo sobre os caminhos da capacitação de professores, do planejamento e do projeto político-pedagógico”, destacou.

Ela assinalou, ainda, que o evento proporcionou o estreitamento dos laços da universidade com e escola e a troca de experiências entre todos os sujeitos. “Como disse Vygotsky, na ausência do outro, o homem não se constrói”, concluiu.

O próximo seminário ocorrerá em fevereiro de 2020, mas o dia ainda depende do calendário escolar da Prefeitura.