“Em época hostil à educação, é crucial formar bons professores”, diz diretora da FE

Texto: Coryntho Baldez

Sala de aula do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ. Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcom / UFRJ)

A docência é um componente essencial da formação do pedagogo. Encará-la como profissão deveria ser uma espécie de bússola da vida acadêmica dos estudantes.

Com essa exortação aos alunos para que percebam o magistério como atividade com estatuto profissional próprio, a diretora da Faculdade de Educação (FE), Carmen Gabriel, abriu a aula inaugural que proferiu na Semana de Integração da Pedagogia, na noite de 19/8, no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha.

A professora titular de Currículo da FE falou sobre o Complexo de Formação de Professores da UFRJ no evento semestral que promove o acolhimento de novos estudantes e a troca de saberes acadêmicos.

De outro lado, Carmen frisou que cabe à universidade assumir, de modo claro, a sua função social de formar bons profissionais para trabalhar nas escolas da educação básica: “Talvez seja o que mais o Brasil precisa”.

Carmen Gabriel: “UFRJ deve ter o mesmo orgulho de formar professores que tem de formar os seus médicos e engenheiros”. Foto: Coryntho Baldez

Embora tenha ressaltado que a gestão escolar é relevante e será abordada durante o curso, Carmen foi taxativa ao se dirigir aos estudantes: “É importantíssimo vocês saberem que se tornarão professores das séries iniciais na educação básica, e que essa é uma dimensão vital da formação de pedagogos”.

Ela disse, ainda, que a atividade docente não é transmitir o conteúdo de modo mecânico, mas transformá-lo em objeto de ensino. “Não basta saber Matemática ou História para ser professor”, advertiu.

Uma rede que envolve vários sujeitos

Foi como resposta ao desafio de diplomar profissionais cada vez mais qualificados para a docência que a UFRJ criou o Complexo de Formação de Professores (CFP).

Segundo Carmen, trata-se de uma política institucional assumida pela Universidade e que tem como uma de suas ideias centrais a valorização das licenciaturas.

“As licenciaturas têm identidade e especificidades próprias e não podem mais ser vistas como algo menor pela academia. A resolução que criou o Complexo fala disso”, afirmou.

Ela classificou o CFP – do qual é coordenadora – como uma rede que articula todos os sujeitos envolvidos na formação “desse profissional chamado professor”.

Estudantes lotaram o auditório para saber mais sobre o Complexo de Formação de Professores. Foto: Coryntho Baldez

Segundo a dirigente, o projeto inicial do Complexo também foi orientado pela ideia de casa comum, mas não no sentido físico do termo. É um movimento de articulação, capaz de possibilitar a convivência horizontal e igualitária – sob o mesmo “teto” – dos sujeitos envolvidos com a formação inicial e a formação continuada de professores.

“Escola é lugar de formação”

Ela citou a escola, em especial, como um importante lugar de formação, muitas vezes negligenciado. Assim como a residência médica é uma modalidade de ensino consagrada para os médicos, a pesquisadora considera que o futuro professor deve ter uma relação produtiva com a escola, o lócus onde atuará profissionalmente.

“A UFRJ deve ter o mesmo orgulho de formar professores que tem de formar os seus médicos e engenheiros. O CFP tem esse objetivo”, sublinhou.

Com o Complexo, a UFRJ assumiu a responsabilidade de promover um salto de qualidade na formação docente. “Como instituição pública, temos a oferecer um ambiente de formação rico e denso, com inúmeras ações no ensino, na pesquisa e na extensão”, realçou.

Em sua palestra, a professora também frisou que um dos pressupostos do CFP é “a formação construída por dentro da profissão”. Ou seja, uma formação orientada por saberes e práticas inerentes à atividade docente.

“A ideia de vocação precisa ser desconstruída”, afirmou. Ser professor, segundo Carmen, pressupõe estudo, trabalho e um código profissional.

Ao refutar a ideia do professor como doutrinador, a pesquisadora assinalou que o autêntico saber docente é estratégico: “É uma forma de socializar o conhecimento científico, pensar o mundo e dialogar com a diferença”.

E acrescentou que a formação qualificada de professores – “que saibam lidar com a controvérsia e o respeito ao diferente” – é ainda mais crucial em um país, hoje, tão hostil à ciência, à educação e à cultura.