“É preciso reinventar a escola”, afirma Ana Maria Monteiro em aula inaugural do Cespeb

Texto: Coryntho Baldez

Foto: Pixabay

A escola, em geral, tem sido atacada e vista como um lugar perigoso. Uma instituição que não funciona e até deseduca. Mas, o país quer mesmo uma sociedade sem escolas e educadores?

A reflexão de Ana Maria Monteiro, professora da Faculdade de Educação (FE), chamou a atenção da plateia na aula inaugural do Curso de Especialização Saberes e Práticas na Educação Básica (Cespeb), no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha, na noite de 8/8.

Na contracorrente das vozes que rotulam a escola como anacrônica, perseguem a atividade docente e clamam pelo ensino domiciliar, a pesquisadora defendeu o direito à educação pública, com amplo acesso da população ao conhecimento científico e à formação voltada para a cidadania.

Em sua palestra Currículo e Docência: a Relação com o Saber em Questão, a professora do Programa de Pós-graduação em Educação da UFRJ lembrou que, pela Constituição, a educação é obrigatória dos 4 aos 17 anos.

“O ensino infantil, fundamental e médio é uma exigência constitucional. Para abrir espaço para o homeschooling, a educação no lar, seria preciso uma alteração da lei maior do país”, alertou.

No entanto, ela considera que a escola é atravessada por problemas estruturais e pedagógicos que precisam ser enfrentados. Para isso, lançou o desafio de reinventá-la aos estudantes – em sua maioria, professores da rede pública – que comporão a nova turma do Cespeb.

Em sua palestra, Ana Maria Monteiro defendeu o respeito à diferença dentro da escola

Laicidade da escola e ciência na educação

Com a legitimidade que adquiriu ao longo da carreira de professora e estudiosa de temas como formação docente e currículo, a docente da FE deu algumas pistas para a tarefa de recriar a escola.

Defendeu enfaticamente, por exemplo, em contraposição ao obscurantismo religioso, o caráter laico da instituição, que lida com pessoas de vários credos, e o livre debate da ciência no ambiente escolar.

“Os saberes do professor estabelecem um diálogo com a produção de conhecimento e, em certo sentido, a escola representa um importante espaço de divulgação científica”, salientou.

Lembrou, ainda, que a escola não tem mais o monopólio da difusão do conhecimento, com o avanço explosivo dos meios de comunicação, especialmente os digitais. Por isso, avalia como essencial que os profissionais da educação sempre se perguntem sobre quais conhecimentos irão ensinar.

É uma interrogação cuja resposta depende da autonomia pedagógica do educador em sala de aula e que recai, segundo a pesquisadora, no debate sobre o currículo.

“O currículo é a expressão de uma seleção, organização e distribuição de conhecimentos. Portanto, é uma questão didática, mas também política, pois implica em conteúdos selecionados no âmbito da cultura mais ampla”, afirmou.

Citou como exemplo a questão ambiental, que possui concepções distintas e em disputa na sociedade, tanto no plano nacional como internacional. “Falar com as crianças e adolescentes sobre a preservação do meio ambiente, fazer trabalhos de educação ambiental, é importante ou não? Eles precisam saber disso ou não?”, indagou.

No âmbito do ensino da História do Brasil, a questão étnico-racial, segundo ela, sempre foi invisibilizada e ausente. A abordagem do tema em sala de aula se restringia à época da escravidão e sumia dos cursos nos períodos históricos subsequentes. “Só a partir de muita luta dos movimentos sociais, passou a ser tratada com mais propriedade nos currículos”, exemplificou.

Os novos alunos prestigiaram a aula inaugural do Cespeb, que oferece vagas, preferencialmente, a professores da rede pública básica

Homogeneização X respeito à diferença

Segundo Ana Maria Monteiro, para reinventá-la, é preciso pensar também se a escola é um lugar de consenso ou de dissenso. A pesquisadora a enxerga como uma instituição de ideias necessariamente conflitivas e plurais: “É um espaço do contraditório no sentido de que se deve sempre problematizar e colocar em questão alguns conhecimentos e certas verdades”.

É a partir dessa relação aberta e questionadora com o conhecimento que, segundo a professora, surgem formas inovadoras de enxergar o mundo.  Ela assinala, ainda, que a homogeneização da escola castra o debate em torno da identidade e da diferença, essencial à sua reinvenção.

Ao lado das três dimensões do ato educativo – a qualificação, a socialização e a subjetivação (veja aqui a palestra completa) –, a docente diz que as identidades dos sujeitos também vão sendo constituídas. E lidar com a diferença é, hoje, uma questão crucial dentro da escola.

“Não estamos falando aqui em processos de homogeneização, de realizar uma educação que torna iguais os pensamentos e os interesses de todos. Entendemos que somos diferentes e que a diferença faz parte do processo de subjetivação”, sustentou.

Cespeb tinha o espírito do Complexo desde o início

Ao final, a palestrante lembrou que o Cespeb, coordenado pelas professoras Ligia Karam, da Faculdade de Educação, e Rozana Gomes, do Colégio de Aplicação (CAp), foi uma iniciativa conjunta das duas unidades para valorizar a relação entre a universidade e a escola pública.

“Foi esse o espírito, inclusive, que levou à criação do Complexo de Formação de Professores (CFP), institucionalizado em dezembro do ano passado”, sublinhou.

Segundo ela, o espaço virtual e comum que reúne a universidade e a escola pública é exatamente o que se busca construir por meio do Complexo, já que nem uma nem outra formam, isoladamente, os professores.

“De alguma maneira e de forma pontual, já fazíamos isso, mas não teorizávamos sobre essa questão como hoje. O Cespeb já era uma experiência nesse sentido desde 2008. Além de compreender a docência como profissão, com saberes próprios, adota a horizontalidade como princípio”, completou.

Por fim, Ana Maria Monteiro frisou que, no atual cenário de novos aprendizados e desafios na educação, como a viabilização do CFP, o melhor a fazer para seguir em frente é assimilar uma antiga lição de Paulo Freire: “Ninguém caminha sem aprender a caminhar”.