Future-se: a ilusão de um horizonte de fartura para a universidade pública

Texto: Coryntho Baldez

Pôr do sol no Fundão, visto do terraço do prédio da Reitoria. Ao longe, o Centro de Tecnologia. Crédito: Raphael Pizzino (Coordcom / UFRJ)

As férteis promessas do Future-se de atrair volumosos recursos da indústria para a universidade pública e converter os estudantes em empreendedores de sucesso se chocam com a realidade.

O programa do Ministério da Educação (MEC), lançado em 17 de julho, desconsidera que o setor produtivo não investe em pesquisa e que a economia brasileira, dependente de commodities, tem sido incapaz de gerar empregos qualificados e de produzir bens e serviços com alto conteúdo tecnológico.

A análise de Roberto Leher, ex-reitor da UFRJ e professor titular da Faculdade de Educação (FE), foi feita em debate sobre o Future-se, na Semana de Integração da Pedagogia, em 21/8, no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha.

A princípio, segundo ele, a ideia de incrementar a cooperação entre as instituições federais de ensino superior (Ifes) e as empresas tem certo apelo sob a ótica do senso comum. Afinal, a colaboração pode ser frutífera em determinadas áreas, como aconteceu com a parceria entre a Petrobras e a UFRJ para desenvolver a tecnologia de exploração do pré-sal.

Contudo, Leher ressaltou que o debate não é sobre se a universidade deve ou não manter uma interação com o setor produtivo, mas se o capital privado pode, de fato, financiá-la.

Nos EUA, apenas 1% do dinheiro privado chega à universidade

Pesquisador de políticas públicas em educação, ele disse que a indústria, na verdade, não financia o grosso da pesquisa universitária em nenhum país do mundo, nem mesmo nos Estados Unidos, onde há forte interação da universidade com as empresas.

Roberto Leher: “A emenda 95, que congelou os gastos públicos, é a chave para entender o Future-se” . Crédito: Bianca Pinheiro

De acordo com o professor, um estudo da Fundação Nacional da Ciência (NSF, na sigla em inglês) dos Estados Unidos mostrou que, em 2017, do total do dinheiro aplicado pelas empresas em pesquisa e desenvolvimento (P&D) apenas 1% chegou às universidades. Ou seja, 99% desses recursos ficaram nos próprios departamentos de pesquisa do setor privado.

No caso brasileiro, segundo Leher, a última edição da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) do IBGE, de 2014, mostra que apenas 7% das empresas consideradas inovadoras interagem com a universidade. “Desse percentual, cerca de 70% declararam que essa relação não era estratégica do ponto de vista empresarial”, contou.

Além disso, para o pesquisador, a alternativa de a indústria financiar a universidade brasileira é irreal também por razões macroeconômicas. Lembrou, por exemplo, que o Brasil convive com o número de 55 milhões de pessoas desempregadas, subempregadas ou sem proteção social e uma economia estagnada.

O que existe no Brasil, disse ele, é um esvaziamento da indústria e a expansão da produção de commodities para a exportação, como o minério de ferro, a soja e a carne. “Uma economia pouco complexa e desindustrializada gera trabalho precário e de baixa qualificação”, afirmou.

Emenda 95 impôs camisa de força ao Estado

Em uma economia deteriorada e rudimentar, qual o lugar da pesquisa? Para Leher, o país vive um processo acelerado de eliminação da estrutura e das políticas de ciência e tecnologia do âmbito do Estado.

No entanto, segundo ele, a crise financeira do Estado deve ser atribuída, principalmente, à Emenda Constitucional (EC) 95/16, que congelou os gastos públicos por 20 anos e foi aprovada pelo governo Temer. “Ela é a chave para a leitura do Future-se”, afiançou.

A medida, segundo ele, estabelece uma divisão entre duas grandes contas do Estado brasileiro. Uma delas, intocável, diz respeito aos gastos financeiros, relativos ao pagamento de juros e serviço da dívida. “É uma conta sem controle e limite”, sentenciou.

A outra conta, disse, tem limite e se relaciona aos gastos primários, ou seja, todas as despesas não financeiras, como, por exemplo, pagamento de pessoal, benefícios previdenciários, investimentos públicos em infraestrutura e em áreas como educação, ciência, cultura e saúde.

“As despesas primárias no Brasil correspondem a apenas 20% do PIB. Com a emenda 95, a perspectiva é que esse teto caia entre 0,5% e 0,8% por ano, de acordo com um estudo da assessoria da Câmara dos Deputados”, alertou.

Segundo o professor, a EC 95 impôs uma camisa de força ao Estado brasileiro, que não existe em nenhum outro país do mundo. Diante desse quadro, para Leher, é possível concluir que a medida está forçando uma reforma não consentida do Estado. “A reforma da Previdência é uma prova disso”, enfatizou.

O Future-se, disse ele, também é uma dimensão da reforma do Estado. Sem debate prévio, o programa foi apresentado pelo governo como alternativa à crise orçamentária das universidades.

“Recursos de pesquisa não pagam a conta de energia”

As universidades brasileiras, segundo o ex-reitor, recebem para o seu orçamento de pesquisa e desenvolvimento o correspondente a 1,5% em média dos seus gastos gerais. Na UFRJ, um valor em torno de R$ 4 milhões anuais.

Segundo ele, ainda que no Brasil muitas empresas quisessem contratar universidades públicas para fazer pesquisa – “o que está longe de ser verdade” – e a UFRJ recebesse a mais o mesmo valor orçamentário de R$ 4 milhões, esses recursos não cobririam nem a conta de energia, de cerca de R$ 70 milhões.

Segundo Leher, a grande contribuição que a universidade pública oferece às empresas é a formação de pessoal qualificado para operar os seus departamentos de P&D. “No entanto, qual é o nosso drama? A indústria não contrata porque não há ambiente para pesquisa inovadora. O país, na verdade, está exportando matéria-prima”, reforçou.

A pesquisa Pintec também mostra que dos 90 mil mestres e doutores formados no Brasil nas ciências duras entre 2008 e 2010, apenas 80 profissionais foram contratados pela iniciativa privada. “Não chegou nem mesmo a 1%. Mestres e doutores no Brasil trabalham no âmbito público simplesmente porque a indústria não os contrata em proporção significativa”, acentuou.

Sem patrimônio e sem autonomia

De onde viria então o dinheiro do Future-se, que quer “proporcionar às instituições federais de ensino superior acesso a cerca de R$ 100 bilhões”, conforme notícia publicada no Portal do MEC? Essa cifra, segundo Leher, viria do patrimônio da universidade pública.

Anfiteatro (Legenda: Anfiteatro da Praia Vermelha: Pelo Future-se, patrimônio das universidades poderiam integrar um fundo de investimento para ser negociado na Bolsa de Valores. Crédito: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

 

A ideia do Future-se é fazer um levantamento de todos os terrenos das universidades que aderirem ao programa, por meio do Serviço de Patrimônio da União (SPU), e colocá-los à disposição do MEC. “Esse patrimônio iria para um fundo de investimento para ser negociado na Bolsa de Valores, sob controle das chamadas Organizações Sociais [OS]”, disse.

Segundo ele, as Organizações Sociais são entidades privadas com as quais as instituições federais de ensino superior teriam que fazer um contrato de transferência de gestão. “A rigor, o programa é uma iniciativa em que o patrimônio da universidade passa ao controle do MEC, com os circuitos decisórios circunscritos à Organização Social e aos investidores”, condenou.

Com a terceirização da gestão, afirmou Leher, a autonomia universitária para definir as ações prioritárias no ensino, na extensão e na pesquisa desaparece. O poder decisório ficará nas mãos dos investidores que participam do fundo privado.

“Ora, a universidade não teria mais, então, os seus conselhos acadêmicos e de gestão para definir as suas prioridades? Insisto que isso não existe em nenhum lugar do mundo”, reiterou.

A universidade perderia ainda, com o Future-se, a autonomia de gestão financeira, o que contraria os princípios da Constituição Federal. Por isso, para Leher, “o programa é flagrantemente inconstitucional”.

“A educação pública é um elemento civilizatório”

Além disso, ele diz que o Future-se está repleto de submarinos, ou seja, “propostas contrabandeadas” sem nenhuma relação direta com o teor do programa. Um dos mais graves é o fim da dedicação exclusiva (DE) do professor. “Sabemos que não há pesquisa sem esse regime de contratação”, alertou.

Leher disse ainda que vivenciamos um momento no Brasil e no mundo em que parecemos imersos em uma profunda neblina.

Segundo ele, a realidade está se mostrando bastante dura, mas é possível agir para transformar o tempo histórico e buscar alternativas.

“Mais do que nunca, o fazer universitário da educação pública é um elemento civilizatório nessa mudança. E isso deve nos encher de esperança e coragem”, completou.

Curso de Extensão: “Olimpíadas da Sociologia”

Curso de extensão

Título: Olimpíadas de Sociologia

Local: IFCS UFRJ – sala 403

Dias da semana do curso no IFCS: 5ª  e 6ª  feiras

Duração: 06 de setembro até 11 de outubro

Endereço: Largo de São Francisco, sem número, centro do Rio de Janeiro

 

Dias de atuação dos extensionistas no Colégio Estadual Antonio Prado Júnior que sediará as Olimpíadas:

2ª e 3ª feira, dias 07 e 08 de outubro de 2019

Endereço: Rua Mariz e Barros, nº 273-A, Praça da Bandeira, Rio de Janeiro.

 

Carga horária de extensão total: 40 horas

Freqüência necessária para receber certificado: 75%

 

Resumo da ação:

Este curso de extensão visa formar monitores para atuarem na preparação e realização da 1ª Olimpíada de Sociologia do Rio de Janeiro, um projeto de extensão da UFRJ em parceria com a unidade regional da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais do Rio de Janeiro (ABECS-RJ), com a PUC-Rio e com o CEFET-RJ. Dentro de uma proposta metodológica que considera os jogos pedagógicos como ferramentas privilegiadas da mediação entre o conhecimento científico e os saberes escolares, os extensionistas da Continue lendo Curso de Extensão: “Olimpíadas da Sociologia”

“Em época hostil à educação, é crucial formar bons professores”, diz diretora da FE

Texto: Coryntho Baldez

Sala de aula do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ. Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcom / UFRJ)

A docência é um componente essencial da formação do pedagogo. Encará-la como profissão deveria ser uma espécie de bússola da vida acadêmica dos estudantes.

Com essa exortação aos alunos para que percebam o magistério como atividade com estatuto profissional próprio, a diretora da Faculdade de Educação (FE), Carmen Gabriel, abriu a aula inaugural que proferiu na Semana de Integração da Pedagogia, na noite de 19/8, no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha.

A professora titular de Currículo da FE falou sobre o Complexo de Formação de Professores da UFRJ no evento semestral que promove o acolhimento de novos estudantes e a troca de saberes acadêmicos.

De outro lado, Carmen frisou que cabe à universidade assumir, de modo claro, a sua função social de formar bons profissionais para trabalhar nas escolas da educação básica: “Talvez seja o que mais o Brasil precisa”.

Carmen Gabriel: “UFRJ deve ter o mesmo orgulho de formar professores que tem de formar os seus médicos e engenheiros”. Foto: Coryntho Baldez

Embora tenha ressaltado que a gestão escolar é relevante e será abordada durante o curso, Carmen foi taxativa ao se dirigir aos estudantes: “É importantíssimo vocês saberem que se tornarão professores das séries iniciais na educação básica, e que essa é uma dimensão vital da formação de pedagogos”.

Ela disse, ainda, que a atividade docente não é transmitir o conteúdo de modo mecânico, mas transformá-lo em objeto de ensino. “Não basta saber Matemática ou História para ser professor”, advertiu.

Uma rede que envolve vários sujeitos

Foi como resposta ao desafio de diplomar profissionais cada vez mais qualificados para a docência que a UFRJ criou o Complexo de Formação de Professores (CFP).

Segundo Carmen, trata-se de uma política institucional assumida pela Universidade e que tem como uma de suas ideias centrais a valorização das licenciaturas.

“As licenciaturas têm identidade e especificidades próprias e não podem mais ser vistas como algo menor pela academia. A resolução que criou o Complexo fala disso”, afirmou.

Ela classificou o CFP – do qual é coordenadora – como uma rede que articula todos os sujeitos envolvidos na formação “desse profissional chamado professor”.

Estudantes lotaram o auditório para saber mais sobre o Complexo de Formação de Professores. Foto: Coryntho Baldez

Segundo a dirigente, o projeto inicial do Complexo também foi orientado pela ideia de casa comum, mas não no sentido físico do termo. É um movimento de articulação, capaz de possibilitar a convivência horizontal e igualitária – sob o mesmo “teto” – dos sujeitos envolvidos com a formação inicial e a formação continuada de professores.

“Escola é lugar de formação”

Ela citou a escola, em especial, como um importante lugar de formação, muitas vezes negligenciado. Assim como a residência médica é uma modalidade de ensino consagrada para os médicos, a pesquisadora considera que o futuro professor deve ter uma relação produtiva com a escola, o lócus onde atuará profissionalmente.

“A UFRJ deve ter o mesmo orgulho de formar professores que tem de formar os seus médicos e engenheiros. O CFP tem esse objetivo”, sublinhou.

Com o Complexo, a UFRJ assumiu a responsabilidade de promover um salto de qualidade na formação docente. “Como instituição pública, temos a oferecer um ambiente de formação rico e denso, com inúmeras ações no ensino, na pesquisa e na extensão”, realçou.

Em sua palestra, a professora também frisou que um dos pressupostos do CFP é “a formação construída por dentro da profissão”. Ou seja, uma formação orientada por saberes e práticas inerentes à atividade docente.

“A ideia de vocação precisa ser desconstruída”, afirmou. Ser professor, segundo Carmen, pressupõe estudo, trabalho e um código profissional.

Ao refutar a ideia do professor como doutrinador, a pesquisadora assinalou que o autêntico saber docente é estratégico: “É uma forma de socializar o conhecimento científico, pensar o mundo e dialogar com a diferença”.

E acrescentou que a formação qualificada de professores – “que saibam lidar com a controvérsia e o respeito ao diferente” – é ainda mais crucial em um país, hoje, tão hostil à ciência, à educação e à cultura.

Formação dialógica é tema da abertura da Semana de Integração da Pedagogia

Texto: Coryntho Baldez

Foto: Coryntho Baldez

As teorias e políticas educacionais funcionam em sala de aula? Em muitos casos, há uma defasagem entre diretrizes e métodos oficialmente recomendados e as práticas educacionais adotadas pelos professores da rede pública.

A análise foi feita pela professora titular da Faculdade de Educação (FE) Ludmila Thomé de Andrade, na aula inaugural Por uma Perspectiva Dialógica da Formação de Professores, que abriu a Semana de Integração da Pedagogia, ontem (19/8) pela manhã, no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha.

A pesquisadora afirmou que os professores precisam dizer e defender o que fazem em sala de aula. E questionar, sem medo, a inadequação de políticas educacionais abstratas e distantes da realidade dos alunos.

Silvina Julia Fernández e a palestrante Ludmila Thomé de Andrade. Foto: Coryntho Baldez

 

“Os professores devem se tornar autores”

Ludmila contou que, na Inglaterra, uma pesquisadora estranhou o êxito do método fônico de alfabetização relatado por professores públicos em um estudo acadêmico e decidiu investigar os seus resultados em sala de aula. E constatou que os professores, na verdade, iam muito além da orientação oficial no processo de alfabetização dos alunos.

“Eles usavam música e literatura em seu trabalho, por exemplo, ultrapassando as limitações do método fônico, mas não mencionaram isso quando foram ouvidos para a pesquisa”, frisou. Assim como na Inglaterra, o método fônico vem sendo crescentemente adotado no Brasil.

Para superar essa discrepância entre as normas de ensino e as práticas reais dentro de sala de aula, Ludmila aponta que os professores devem se perceber como detentores de saberes profissionais e produzir conhecimento sobre o processo educacional. “Eles devem se tornar autores, mas o problema é como fazer isso”, questionou.

Valorizar os saberes docentes é essencial

Um dos primeiros passos para fazer da escola pública um lugar de produção teórica será valorizar, cada vez mais, os saberes docentes, entre os quais a formação inicial, a indução profissional – orientação nos primeiros anos da atividade docente – e a formação continuada, destacou a professora da FE.

“Não dá para achar que é suficiente fazer uma licenciatura para dar aulas. As crianças e jovens mudam, as escolas mudam e as políticas mudam”, observou.

Mas, nesse processo contínuo de formação, Ludmila alertou para o uso descabido de termos pejorativos, como reciclagem e competências.

“Os professores não são lixo para serem reciclados e transformados em outra espécie de ‘material’ e muito menos incompetentes para adquirirem novas competências”, completou.

Semana vai até dia 23

Na abertura, a vice-coordenadora do curso de Pedagogia da FE, professora Silvina Julia Fernández, disse que a Semana é um espaço transversal de acolhimento de novos estudantes e de troca acadêmica.

Em novo formato, o evento contou com mais duas aulas inaugurais no primeiro dia: O Curso de Pedagogia e a Formação de Professores: Entre Tensões e Perspectivas, com a professora Giseli Barreto da Cruz; e Complexo de Formação de Professores da UFRJ, com a diretora da FE, Carmen Gabriel.

Organizado pelo Núcleo de Planejamento Pedagógico (NPPL) da Pedagogia, a Semana vai até sexta-feira (23/8) e conta com debates, rodas de conversas, atividades culturais e oficinas. Veja a programação completa.

“É preciso reinventar a escola”, afirma Ana Maria Monteiro em aula inaugural do Cespeb

Texto: Coryntho Baldez

Foto: Pixabay

A escola, em geral, tem sido atacada e vista como um lugar perigoso. Uma instituição que não funciona e até deseduca. Mas, o país quer mesmo uma sociedade sem escolas e educadores?

A reflexão de Ana Maria Monteiro, professora da Faculdade de Educação (FE), chamou a atenção da plateia na aula inaugural do Curso de Especialização Saberes e Práticas na Educação Básica (Cespeb), no auditório Manoel Maurício, na Praia Vermelha, na noite de 8/8.

Na contracorrente das vozes que rotulam a escola como anacrônica, perseguem a atividade docente e clamam pelo ensino domiciliar, a pesquisadora defendeu o direito à educação pública, com amplo acesso da população ao conhecimento científico e à formação voltada para a cidadania.

Em sua palestra Currículo e Docência: a Relação com o Saber em Questão, a professora do Programa de Pós-graduação em Educação da UFRJ lembrou que, pela Constituição, a educação é obrigatória dos 4 aos 17 anos.

“O ensino infantil, fundamental e médio é uma exigência constitucional. Para abrir espaço para o homeschooling, a educação no lar, seria preciso uma alteração da lei maior do país”, alertou.

No entanto, ela considera que a escola é atravessada por problemas estruturais e pedagógicos que precisam ser enfrentados. Para isso, lançou o desafio de reinventá-la aos estudantes – em sua maioria, professores da rede pública – que comporão a nova turma do Cespeb.

Em sua palestra, Ana Maria Monteiro defendeu o respeito à diferença dentro da escola

Laicidade da escola e ciência na educação

Com a legitimidade que adquiriu ao longo da carreira de professora e estudiosa de temas como formação docente e currículo, a docente da FE deu algumas pistas para a tarefa de recriar a escola.

Defendeu enfaticamente, por exemplo, em contraposição ao obscurantismo religioso, o caráter laico da instituição, que lida com pessoas de vários credos, e o livre debate da ciência no ambiente escolar.

“Os saberes do professor estabelecem um diálogo com a produção de conhecimento e, em certo sentido, a escola representa um importante espaço de divulgação científica”, salientou.

Lembrou, ainda, que a escola não tem mais o monopólio da difusão do conhecimento, com o avanço explosivo dos meios de comunicação, especialmente os digitais. Por isso, avalia como essencial que os profissionais da educação sempre se perguntem sobre quais conhecimentos irão ensinar.

É uma interrogação cuja resposta depende da autonomia pedagógica do educador em sala de aula e que recai, segundo a pesquisadora, no debate sobre o currículo.

“O currículo é a expressão de uma seleção, organização e distribuição de conhecimentos. Portanto, é uma questão didática, mas também política, pois implica em conteúdos selecionados no âmbito da cultura mais ampla”, afirmou.

Citou como exemplo a questão ambiental, que possui concepções distintas e em disputa na sociedade, tanto no plano nacional como internacional. “Falar com as crianças e adolescentes sobre a preservação do meio ambiente, fazer trabalhos de educação ambiental, é importante ou não? Eles precisam saber disso ou não?”, indagou.

No âmbito do ensino da História do Brasil, a questão étnico-racial, segundo ela, sempre foi invisibilizada e ausente. A abordagem do tema em sala de aula se restringia à época da escravidão e sumia dos cursos nos períodos históricos subsequentes. “Só a partir de muita luta dos movimentos sociais, passou a ser tratada com mais propriedade nos currículos”, exemplificou.

Os novos alunos prestigiaram a aula inaugural do Cespeb, que oferece vagas, preferencialmente, a professores da rede pública básica

Homogeneização X respeito à diferença

Segundo Ana Maria Monteiro, para reinventá-la, é preciso pensar também se a escola é um lugar de consenso ou de dissenso. A pesquisadora a enxerga como uma instituição de ideias necessariamente conflitivas e plurais: “É um espaço do contraditório no sentido de que se deve sempre problematizar e colocar em questão alguns conhecimentos e certas verdades”.

É a partir dessa relação aberta e questionadora com o conhecimento que, segundo a professora, surgem formas inovadoras de enxergar o mundo.  Ela assinala, ainda, que a homogeneização da escola castra o debate em torno da identidade e da diferença, essencial à sua reinvenção.

Ao lado das três dimensões do ato educativo – a qualificação, a socialização e a subjetivação (veja aqui a palestra completa) –, a docente diz que as identidades dos sujeitos também vão sendo constituídas. E lidar com a diferença é, hoje, uma questão crucial dentro da escola.

“Não estamos falando aqui em processos de homogeneização, de realizar uma educação que torna iguais os pensamentos e os interesses de todos. Entendemos que somos diferentes e que a diferença faz parte do processo de subjetivação”, sustentou.

Cespeb tinha o espírito do Complexo desde o início

Ao final, a palestrante lembrou que o Cespeb, coordenado pelas professoras Ligia Karam, da Faculdade de Educação, e Rozana Gomes, do Colégio de Aplicação (CAp), foi uma iniciativa conjunta das duas unidades para valorizar a relação entre a universidade e a escola pública.

“Foi esse o espírito, inclusive, que levou à criação do Complexo de Formação de Professores (CFP), institucionalizado em dezembro do ano passado”, sublinhou.

Segundo ela, o espaço virtual e comum que reúne a universidade e a escola pública é exatamente o que se busca construir por meio do Complexo, já que nem uma nem outra formam, isoladamente, os professores.

“De alguma maneira e de forma pontual, já fazíamos isso, mas não teorizávamos sobre essa questão como hoje. O Cespeb já era uma experiência nesse sentido desde 2008. Além de compreender a docência como profissão, com saberes próprios, adota a horizontalidade como princípio”, completou.

Por fim, Ana Maria Monteiro frisou que, no atual cenário de novos aprendizados e desafios na educação, como a viabilização do CFP, o melhor a fazer para seguir em frente é assimilar uma antiga lição de Paulo Freire: “Ninguém caminha sem aprender a caminhar”.