Complexo de Formação de Professores ganha site moderno e entra em nova etapa

Texto: Coryntho Baldez

Fotos: Ana Marina Coutinho

O lançamento do site do Complexo de Formação de Professores (CFP), em 12/6, foi um passo extraordinário da UFRJ na construção de uma das mais inovadoras políticas de formação inicial e continuada de professores do país.

Iniciativa compartilhada entre a Universidade, diferentes instituições e escolas da rede pública de educação básica, o Complexo tem, agora, um endereço na web. Nele, estará disponível o que vem sendo chamado de cartografia de ações formativas, como cursos, disciplinas, projetos e eventos.

Realizado no auditório Horácio Macedo (Roxinho), o lançamento do site do Complexo mobilizou estudantes, professores e dirigentes

No novo site, o usuário é o soberano. Tudo foi pensado para que ele encontre as informações de modo fácil e rápido. É uma ferramenta que também permite aos gestores de conteúdo adicionar novos cursos, por exemplo, em cards informativos e interativos.

“O site foi a cereja do bolo do trabalho do apoio que demos à divulgação e por meio dele o Complexo ganha vida. A trama que dá a ‘cara’ do site expressa o conceito de rede do Complexo e foi algo pensado entre a nossa equipe e a do Complexo”, explicou Claudia Mendes, coordenadora da Coordenadoria de Comunicação (Coordcom) da UFRJ, durante o evento, realizado no auditório Horácio Macedo (Roxinho), do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN).

A criação de um site de fácil navegação transpôs mais uma etapa de um percurso já relativamente extenso. “A construção do Complexo foi um processo coletivo que começou há três anos e vem tendo conquistas expressivas”, recordou Carmen Gabriel, diretora da Faculdade de Educação (FE) e coordenadora do Comitê Permanente do Complexo, em discurso sobre a trajetória do CFP.

Na conferência que proferiu na abertura, o reitor da UFRJ, Roberto Leher, fez menção a um dos maiores êxitos do Complexo: a sua aprovação unânime pelo Conselho Universitário (Consuni), em dezembro de 2018. Para ele, a institucionalização do CFP representa uma mudança estrutural em relação à função social da Universidade. “Estamos dando um passo adiante. Não poderíamos deixar de consolidar mudanças que vêm acontecendo há anos na formação de professores”, destacou.

Alexandra Cristina, 22 anos, do 3º período de Pedagogia da UFRJ, lamentou que a proposta não existisse na época em que cursava o Colégio Estadual Caetano Belloni, em São João de Meriti. “Se houvesse essa interação quando eu era aluna da rede básica, poderia ter acesso a muitas coisas que só aprendi depois. Mas, agora, é olhar para o futuro”, disse a estudante, que, no evento, apresentou o projeto de extensão Festa da Cuca, Caminhos de Construção da Docência na Educação Infantil.

Alexandra Cristina, do 3º período de Pedagogia da UFRJ, queria que o Complexo existisse na época em que foi estudante de uma escola pública da Baixada Fluminense

Entusiasta da proposta, Patrícia Corsino, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ, observou que o Complexo é uma via de mão dupla entre a Universidade e a rede de educação básica. Ela aposta em uma adesão crescente à proposta ao longo do ano: “Os professores de educação infantil vão fazer um evento ligado à rede de formação de professores e começam a se entender como parte do Complexo”.

Já Daniela de Oliveira Guimarães, docente do Curso de Pedagogia da FE/UFRJ, ressaltou que o Complexo trouxe a institucionalização da relação com as escolas da educação básica. “Nas iniciativas de extensão, de estágio, trabalhávamos com as escolas a partir da relação com os professores. Agora, teremos um vínculo que permitirá a continuidade da formação inicial e continuada”, completou.

O evento contou com apresentação do tenor Saulo Laucas, estudante do Bacharelado em Canto Lírico da Escola da Música (EM), e do pianista Felipe Naim. E teve, ainda, projeção de vídeo sobre a trajetória do Complexo e o lançamento da campanha #ProfSou, que busca valorizar a  profissão docente e a formação de professores na UFRJ. Assim como o site, a campanha ficou a cargo da equipe de profissionais da Coordcom e do Comitê Permanente do CFP.

O tenor Saulo Laucas, estudante do Bacharelado em Canto Lírico da Escola da Música (EM), e o pianista Felipe Naim se apresentaram no início da solenidade

Prestigiaram a solenidade, além de estudantes, dirigentes e professores da UFRJ e de instituições e escolas parceiras, o decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), Marcelo Corrêa Castro; a decana do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN), Cássia Turci; a vice-diretora da Faculdade de Educação (FE), Rosana Heringer; o pró-reitor de Graduação, Eduardo Serra; e o vice-reitor eleito da UFRJ, Carlos Frederico, que assumirá o cargo em 8 de julho.

Carmen Gabriel: “Só quero saber do que vai dar certo”

No relato que fez sobre a história do Complexo, Carmen Gabriel frisou que a iniciativa representa, no fundo, a construção de uma política institucional e de formação de professores da educação básica em uma das maiores universidades públicas do país.

Segundo ela, o reconhecimento institucional do papel crucial da Universidade no processo de formação de professores explica o esforço empregado para a reconfiguração do lócus de formação docente para além dos muros universitários.

A diretora da FE/UFRJ sublinhou que, na criação do Complexo, alguns aspectos eram inegociáveis. Entre eles, a importância da escola pública, laica e democrática e também dos profissionais que nela atuam na formação de estudantes das licenciaturas. “Não se tratava apenas de articular com a escola, mas, sobretudo, de qualificar de outra forma essa articulação”, frisou.

Citou como conquistas importantes, ainda, o desenho institucional do CFP, no qual se insere a cartografia dos percursos formativos de todos os parceiros, e o acordo com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro para levar adiante, neste ano, uma experiência-piloto com seis escolas do município.

Para expressar a confiança de que a criação do Complexo de Formação de Professores já é uma jornada vitoriosa e sem volta para a UFRJ, Carmen Gabriel recorreu à poesia dos Titãs: “Não temos tempo a perder, só quero saber do que vai dar certo”.

Campanha valoriza profissão docente

A professora Cristina Miranda, diretora do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ, falou, no evento, sobre o lançamento da campanha #ProfSou, que possui três eixos básicos.: a valorização da profissão docente; a visibilização e valorização da formação de professores na UFRJ; e, por fim, a valorização da parceria na relação da UFRJ com as escolas públicas e com as outras instituições de ensino que fazem parte da grande rede pública.

Ela disse que a campanha traz a ideia de pertencimento e de orgulho da profissão docente. Destacou, ainda, que ela não remete a um gênero, professor ou professora, e sintetiza a valorização, a formação e a profissão.

Já a professora Rita Vilanova, representante da Pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa (PR-2) no Comitê Permanente do Complexo, apresentou alguns conceitos que orientaram o projeto do site. “Com o site, queremos auxiliar a construção de trajetórias de formação profissional por meio de uma ferramenta que vai dar visibilidade às atividades de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas pelas instituições que compõem o Complexo”, explicou.

Ela espera que o site seja um espaço de aproximação e articulação para possibilitar novas interações entre diferentes atores envolvidos na formação docente.

Roberto Leher: “Universidade precisa falar para a sociedade”

Em sua exposição, o reitor Roberto Leher também lembrou que o tema da formação de professores é o de maior tensão no país. Por isso, considera que a universidade pública – “que sistematicamente é silenciada” – fale sobre a sua concepção de educação para a sociedade.

O reitor Roberto Leher, que fez uma conferência no evento, e a diretora da Faculdade de Educação, Carmen Gabriel

“Quase sempre encontramos para debater esse tema entidades de natureza empresarial que têm concepções específicas sobre educação. Fazem, por exemplo, diagnósticos e interpretações sobre o desempenho do Pisa e questões correlatas como se fossem a única voz autorizada a falar sobre educação pública”, critica.  Para Leher, debater a organização do Complexo é construir uma proposição ética e política diferente sobre o papel das universidades públicas para o futuro do país.

Leher alertou ainda para um processo de monopolização da educação superior no Brasil, sem similar no mundo. Segundo ele, nenhum outro país vive na mesma escala uma situação de concentração de negócios educacionais como o Brasil: “Um único grupo, o Kroton, constituído por fundos de investimento, possui mais estudantes do que as 63 universidades federais juntas. E grande parte dessas vagas oferecidas são para formação de professores, sendo que cerca de 60% são de cursos a distância”.

Essa realidade educacional, para o dirigente, torna ainda mais necessário o debate de estratégias de formação que assegurem o sentido da campanha #ProfSou. Hoje, diz, 40% dos professores do Brasil em atividade estão sem nenhum tipo de contrato de trabalho. Em alguns estados, acrescenta Leher, já existem os primeiros sinais de uma espécie de ‘uberização’ do trabalho docente.

“O Complexo de Formação de Professores dará uma contribuição essencial para ampliar a ação pública no campo da educação e enfrentar essa realidade áspera com uma perspectiva construtiva”, completou.

* Quem quiser saber mais sobre o Complexo, acesse matéria veiculada pelo Conexão UFRJ